domingo, 6 de agosto de 2017

O NOSSO COLABORADOR

JÚLIO CORREIA FORTUNATO



Foi ontem, 3 de agosto de 2017, que voltei a entrar no que foi a Quinta dos Cedros, herança do meu avô paterno mas com este nome escolhido pela minha mãe, em Vendas de Ceira, próximo de Coimbra. 

E tu, meu caro Júlio, tinhas de reaparecer na minha memória: foste o último guardião, verdadeiro cuidador, do que foi aquela bela quinta, para a qual também contribuí sugerindo a plantação de dois ciprestes que ainda lá continuam, exibindo a sua elegância de árvores altas e esguias. 

Há quem as associe a cemitérios mas à nossa família não trouxeram morte, pelo menos nos 20 anos que se seguiram à sua plantação… Todos os dias, meu prezado amigo, vinhas, a pé, da tua casa nos Braçais até à nossa quinta, uns três ou quatro quilómetros; talvez esse exercício físico, conjugado com o trabalho dos teus músculos na agricultura, tenha mantido a tua saúde e prolongado a tua vida.

Olhando a velha casa da quinta, já há muito tempo eu vejo o seu telhado ameaçando ruína; agora emprestada gratuitamente a uma senhora conhecida, natural da aldeia, eu já lá tinha entrado e visto como peças valiosas de mobiliário tinham desaparecido, desde o enorme relógio de pêndulo que em Inglês se diria um grand-father’s clock, até aos dois enormes armários sobrepostos da sala de jantar com o topo do superior encostado ao teto, enfim o arquivo do escritório onde tantos antigos documentos se guardavam.

E na cave, havia uma marquesa ginecológica, vinda do consultório do meu pai, que talvez por ser metálica (e o metal vende-se a peso) também sumiu, substituída agora por um colchão onde vem dormir - quem sabe? - algum vagabundo… embora me afirmem que não há sem abrigos nas redondezas. 

A porta da cave não se fecha… e, no cimo da quinta, há um portão que também não se fecha.

Tentei ontem percorrer a quinta; ela está agora, em todos os sentidos, impenetrável. Irreconhecível! Até o antigo galinheiro me pareceu, à primeira vista, um muro que dantes não existia. Impressiona! 

É um modelo de floresta virgem, um mundo de silvas, onde os antigos caminhos que a atravessavam em todas as direções desapareceram, apenas nalguns pontos dispersos ainda vemos os restos de uma ou outra linha de tijolos que os delimitava.

Meu caro Júlio, tu tinhas amor àquela quinta, tu fazias tudo para manter o terreno impecável, todos os bocadinhos estavam aproveitados; e aqueles seus três poços, tinham todos água. No que fica na zona superior da quinta, a máquina que trazia a água lá do fundo estava preparada para ser movida por um jumento que andava à roda do poço. No teu tempo, Júlio, já não havia jumento para puxar a água e, se bem me recordo, já não se utilizava a água desse poço! Mas o muro em círculo ao redor ainda hoje lá está. 

E há algures uma pintura (ou fotografia?) onde se via a minha avó paterna encostada ao muro, juntamente com o meu pai.

Havia um segundo poço a meio da quinta, este sem qualquer resguardo, só rodeado por uma pequena sebe; era mesmo um perigo para crianças imprudentes, mas, felizmente, nunca houve qualquer acidente.

Enfim o terceiro poço era o mais próximo da habitação, a água que se aproveitava era erguida por uma bomba elétrica, armazenava-se num tanque ali mesmo ao lado, e a boca do poço estava, e continua a estar, tapada por uma placa de cimento; para evitar o perigo de alguém cair lá dentro! 
Quanto ao tanque, tinha sempre água límpida: regavas os terrenos próximos com aquela água e ias varrendo o fundo do tanque de vez em quando para o manter limpo. Tanto mais que havia bambus e árvores ao redor, das quais caíam folhas.

Todas as semanas, eu te visitava. Era uma rotina. Pagava-te o trabalho da semana e despesas que houvesse, recebia algum dinheiro de coisas que vendias, hoje uns litros de vinho, ontem umas alfaces, conversávamos um pouco… E havia uma vizinha que guardava ovos para nós: a minha mãe não confiava muito nos ovos comprados no mercado ou mercearias – a ASAE ainda não existia – por isso ela preferia consumir os que lhe fornecia a vizinha, por serem de mais confiança. E tu ias à vizinha buscar os ovos e levar o dinheiro para lhos pagar, claro!

Um dia adoeceste. O prognóstico era grave mas tu recusaste qualquer intervenção terapêutica. Realmente, ainda continuaste a trabalhar com o ânimo de sempre. Creio que durante vários anos. Por fim, um dia, as forças falharam de vez… e não mais voltaste à quinta. 

Eu continuei a ir visitar-te à tua casa, nos Braçais, e a levar-te a semanada; não é que tu precisasses dela; é justo acrescentar que tu recebias já há tempos uma pequena mas condigna reforma da Segurança Social! Mas eu quis que sentisses que a tua presença neste mundo mantinha para mim o mesmo valor; por isso continuei a levar-te a semanada! No fundo era como se te pagasse essa tua presença no mundo. 

Quando enfim partiste para não voltares, nem à nossa quinta nem à tua casa em Braçais, senti a tua falta; e ainda hoje a sinto.


Meu caro Júlio: 
- Que exista o Paraíso e te sintas feliz nele, como creio que te sentias na nossa quinta!

                                              


Figueira da Foz, 5 de agosto de 2017