terça-feira, 21 de março de 2017

CONCEIÇÃO MENDES CORREIA DE LEMOS

Já em vários momentos da minha vida mencionei pessoas que me deixaram saudades: a minha tia-avó Conceição Mendes Correia de Lemos, o meu Pai, José Simões Pereira Júnior, e a Maria da Assunção Ferreira que foi uma espécie de ama para mim.

Da minha tia recordo uma afirmação que fez, como se me dissesse um segredo: 

“Ó Zé Manel, Zé Manel, o fim da vida é muito triste!” 

Foi quase uma confidência. Falava como pessoa que tinha vivido momentos alegres, pois só quem viveu momentos felizes pode compará-los com outros que o não foram! 



Quando jovem, tinha tido amigas com quem se divertiu, é claro que dançou, ouviu música, passeou… Mas eu já sabia, quando ela me falou, que também tinha tido perdas na vida: sem filhos, com duas irmãs falecidas, uma com uns trinta outra com uns quarenta anos, viúva, o irmão emigrante no Brasil num tempo em que não havia telemóveis, skypesemails, nem sequer carreiras aéreas diárias, pois era de barco que se viajava… 


Enérgica, administrava as suas fazendas acompanhando os trabalhadores rurais que as cultivavam, levantando-se às seis da manhã para ir a pé visitá-las, algumas a um ou até dois quilómetros de casa.

Por essa altura, ela tinha uma consciência clara da sua idade. Um dia, viajou connosco até à Figueira da Foz. Quando íamos regressar a Coimbra de onde ela seguiria depois para a sua casa em Travanca de Lagos, lembro--me de a ouvir apelar à sua veia poética e dizer: 

“Adeus, mar, até à eternidade!” 

  

Não sei se foi então que esteve realmente pela última vez à beira-mar; talvez até nem fosse; mas acompanhei-a sentindo um pouco da sua nostalgia.

E quantas incompreensões de sobrinhos ela sofreu, ela que tinha sempre a porta aberta para receber todos os que a procurassem! 

Era em casa dela, em Travanca, concelho de Oliveira do Hospital, na Beira Alta, que eu e minha mãe passávamos o mês de setembro mais uns dias no Natal, todos os anos, e era ali, na Beira, que nos reuníamos com primos nossos e outros sobrinhos dela, mas quantas vezes essas reuniões degeneravam em mal-entendidos! Nunca isso a levou a evitar a presença de todos!

Minha querida Tia Conceição, que bem que eu hoje te compreendo! 

Obrigado pelo que me ensinaste da vida, com a confidência que acima recordo e outras frases que te ouvi dizer: 
com a tua tolerância, a tua paciência, a coragem de manteres a tua convicção nos valores da família, pois tinhas consciência que não há ninguém perfeito, a abertura ao diálogo, a capacidade de sofreres por esses valores em que acreditavas. 
E a par com tudo o mais, recordo a amizade e gratidão que tinhas pelo meu pai, outra pessoa que, como digo, me deixou profundas saudades. Médico que era, várias vezes te tratou e te aconselhou, com a prudência e a humanidade que sempre o orientavam.


Agora sou eu que digo: – Adeus, tia, até à eternidade! 


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