segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

DEUS, A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA (*)


A Ciência e a Tecnologia são produtos do trabalho humano cuja inteligência foi posta a funcionar por Deus; Ciência e Tecnologia podem pois ser vistas como uma dádiva de conhecimento que Deus nos oferece através do nosso trabalho.

Para explicar melhor este meu ponto de vista, imaginemo-nos no tempo anterior a Gutemberg, quando a sobrevivência da documentação escrita estava nas mãos dos monges copistas. Acompanhemos um deles, meditando no seu trabalho e orando, ao fim do dia, antes de ir repousar. Pensava que, se Deus o ajudasse, conseguiria copiar as 500 laudas do livro que tinha à sua frente, não em 5 meses, como era habitual, mas em 5 semanas! O que, obviamente para ele e todos os seus contemporâneos, só por milagre seria possível.

Nessa noite, num sonho, Deus ter-lhe-á respondido à sua oração. Disse-lhe que tal milagre haveria de ocorrer, mas não na vida dele; consolou-o fazendo-lhe sentir que, ao copiar os livros que continham o saber humano do seu tempo e ao torná-los úteis aos estudiosos que os iriam usar para conhecer e ampliar um pouco mais esse mesmo saber, ele estava a contribuir para que o milagre que pedia viesse a acontecer no futuro.

Sentiu-se tranquilo e feliz o dito copista, não só pelo simples facto de Deus lhe ter respondido, como por lhe ter garantido que o milagre se realizaria. E veio, na verdade, a realizar-se! Não durante a vida do monge, mas séculos depois. Hoje, para copiar um livro de 500 páginas, não precisamos de 5 semanas, nem 5 dias, nem 5 horas, nem 5 minutos. Bastam uns 5 segundos! Porque enquanto os anos rolaram, Deus ensinou-nos – ou permitiu que nós descobríssemos – como realizar um tal milagre! Presentemente, todos nós conseguimos repeti-lo com alguns toques simples no teclado dos nossos computadores.

Assim a Ciência é um exemplo claro da colaboração entre Deus e a Humanidade. Quando o Génesis (3:19) repete a palavra de Deus a Adão “comerás o pão que obterás com o suor do teu rosto”, a interpretação tradicional entende-a como um castigo. Já há, porém, quem não a entenda assim: vi há tempos, a 25 de janeiro de 2014, um texto do filósofo João Maria Mendes no seu blogue janusonline.pt/2008/2008_4_1_1.html.  Tal como ele, embora numa perspetiva algo diferente, eu não entendo o trabalho como um castigo, mas sim como uma honra que Deus concedeu aos humanos. “Ao trabalhares para obteres o teu pão, estarás a colaborar Comigo…” teria podido acrescentar, às palavras de Deus, o autor-relator do Génesis. Porque certamente, como faz com as aves dos céus, as quais, como sublinha Mateus (6:33-44), “não semeiam nem ceifam” e, no entanto, não lhes falta o sustento, também connosco Deus podia fazer o mesmo. Mas não o faz!

Colaborar com Ele é, pois, uma distinção que nos honra e dignifica. E fazer Ciência, aumentar o conhecimento humano, é sem dúvida um esforço, minúsculo, sim, à escala divina… mas existente e visível, à escala humana, de aproximação nossa à Sua omnisciência.

Coimbra, 15 de janeiro de 2017

J. M. S. Simões-Pereira


(*) Veja também o meu livro “Convicções e Ceticismos”, Editora Luz da Vida, Coimbra, 2014 (capítulo 21).




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