sábado, 5 de outubro de 2013

Universidade em Newark - Delaware USA = EUA

Minha conferência no Delaware



Foi com prazer que fiz, no dia 10 de setembro de 2013, a intervenção inaugural no seminário de matemática discreta dirigido pelo professor Félix Lazebnik no Departamento de Ciências Matemáticas da Universidade do Delaware.

Falei sobre alguns temas que têm chamado a minha atenção nos últimos tempos e sugeri questões relacionadas com esses mesmos temas e que julgo não estarem ainda resolvidas.



A sala do seminário, a sala 336 do Ewing Hall, estava cheia (algumas vinte a trinta pessoas) e a assistência dialogou comigo no decorrer da apresentação e no fim dela, manifestando interesse e acompanhando perfeitamente o que eu ia dizendo. Os participantes eram essencialmente professores e doutorandos.



As fotos que se seguem foram tiradas pela minha Mulher Maria da Luz que também gosta de assistir.








sexta-feira, 14 de junho de 2013

Aristides Sousa Mendes versus Salazar

Convite à cidadania


Evento em Cabanas de Viriato
20 Junho 2013

O diplomata português que desobedeceu a Salazar e, quando cônsul em Bordéus em 1940, passou milhares de vistos a cidadãos fugidos à perseguição nazi, é um dos meus “heróis” preferidos.

Basta conhecer a história da sua vida e temos logo uma razão para repudiar a ditadura do Estado Novo!

Portugal deve fazer todo o possível para honrar a memória deste homem. Apesar da crise que estamos a atravessar, devia ser feito um esforço sério para recuperar a casa da sua família em Cabanas de Viriato e transformá-la em museu e/ou centro de interpretação do que foram aqueles anos de guerra na Europa e no Mundo.
É óbvio que não o conseguiremos só com o nosso esforço: mas os muitos descendentes de quem ele salvou, hoje espalhados por diversos países entre os quais os EUA, estão por certo dispostos a ajudar.
Prova disso é a existência da Sousa Mendes Foundation, constituída em 2010, com sede em Seattle, que acaba de organizar uma viagem a Cabanas de Viriato, este mês, no dia 20 de Junho de 2013, aliás com o apoio do município de Carregal do Sal e da sua congénere portuguesa, a Fundação Aristides de Sousa Mendes, constituída há mais tempo que a americana.

Pessoalmente vou associar-me a este evento.

Aproveito para fazer uma proposta que pode ser chocante para alguns. É a seguinte:
A uns vinte quilómetros de Cabanas de Viriato, fica Santa Comba Dão, terra natal de Salazar, o ditador que amaldiçoou Sousa Mendes e toda a sua família. Tal como Roma não destruiu nem as suas catacumbas nem o Coliseu onde tantos gladiadores e tantos cristãos foram mortos em espetáculos de horror e ódio, Santa Comba em nada se desprestigia por criar também uma instituição que seria um museu e/ou centro de interpretação do Estado Novo.

Que ninguém me entenda mal!
A existência de museus da Inquisição não significa que se aceita o papel que a mesma teve no seu tempo, antes pelo contrário, a mensagem a transmitir é aquela que o Japão inscreveu junto a Hiroxima, e que diz apenas:

- “Para que o Mundo não esqueça!”

Sousa Mendes, em Cabanas versus Salazar, em Santa Comba fariam uma só aparentemente estranha parceria num esforço para que não esqueçamos a História.
Dois locais a curta distância que os jovens poderiam visitar para crescerem em cidadania! Já para não falar no papel que tais instituições assumiriam para estimular o turismo na região.

Mais informações em:

http://www.fundacaoaristidesdesousamendes.com/

http://sousamendesfoundation.org/

 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mário Sousa Santos, músico e professor


Mário Sousa Santos deu aulas do que então se chamava Canto Coral no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, hoje Escola Secundária José Falcão.
Foi professor, por exemplo, do cantor Mário Gomes Pais de quem se fala no site:
http://quartetoaeminium.com.sapo.pt/feedback51.htm

 
Neste video estamos a ouvir uma composição dele  
Ave Maria  interpretada pelo Coro Cantacellis no
1º Encontro de Música Coral da Póvoa De Varzim


Este homem nada tem a ver com a Matemática.

Foi músico. Compôs e interpretou peças para piano: na Igreja de Santa Cruz em Coimbra, ouvi-o acompanhar celebrações litúrgicas com arranjos ou improvisações inspiradas em peças célebres como, por exemplo, a Tristesse de Chopin; ensinou no então chamado Liceu D. João III, também em Coimbra; e deu aulas particulares: foi assim que o conheci quando fui seu aluno privado em solfejo, história da música, piano e harmonia. Brilhante pedagogo, foi sob a sua orientação que me submeti e fui aprovado em exames a estas disciplinas nos Conservatórios do Porto e de Lisboa.

Não levei ao fim nem o curso de piano nem o de composição, porque entretanto o primeiro emprego como programador de computadores no Centro de Cálculo Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência não me deixava muito tempo livre. A paixão pela Música, no entanto, não se apagou; e seria injusto não referir aqui a professora Isabel Gouveia (Pires), com quem, anteriormente, criança ainda, já tinha tido as primeiras lições.

Sousa Santos tinha uma personalidade que impressionava. Era discreto, simples, eu diria mesmo humilde mas ao mesmo tempo muito sociável: quase um asceta, era solteiro e julgo que nunca sequer teria tido namorada!

Quando comecei a minha atividade profissional, publiquei um pequeno trabalho de investigação, redigido em Inglês, [“On the maximum value of sums of products”, Gazeta de Matemática, vol.94-95, (1964), pág. 1-3] cuja primeira versão portuguesa me tinha valido o Prémio F. Gomes Teixeira de 1962. Este prémio era dado a trabalhos de Matemática da autoria de jovens estudantes universitários. Quando foi publicado, acrescentei a dedicatória: To Mr. Mário Sousa Santos, in appreciation and affection. E ofereci-lhe uma separata.

Sousa Santos respondeu-me com a carta que a seguir transcrevo, datada de 23 de fevereiro de 1965:

Meu caro José Manuel

Venho agradecer-lhe muito sensibilizado a gentileza da sua oferta, fruto do seu nunca desmentido afinco ao estudo e do inegável talento com que Deus o dotou.

Embora não seja um trabalho da minha especialidade, confunde-me a sua lembrança, e mais uma vez tenho a prova da sua amizade e dedicação.

Deus queira que não tenha colocado a música, um bocadinho no esquecimento…

Não é só fazendo sonatas que merece a pena “musicar!”

Aguardo a 1.ª oportunidade para lhe falar, e de lhe dar um abraço amigo e de muito reconhecimento.

Adeus José Manuel – vai a expressão de toda a admiração e estima do seu velho professor e amigo

M. Sousa Santos


A este poster, redigido a 18 de maio de 2013, acrescento hoje, a 7 de julho de 2014, a seguinte nota:

No Diário de Coimbra de 4 do corrente mês, fala-se de um recital na Casa da Cultura César Oliveira, em Oliveira do Hospital, pelo jovem músico Tiago Nunes, de Ervedal da Beira. E anuncia-se que, em parceria com a soprano Carla Bernardino, foram convidados a gravar todas as obras para canto e piano de Mário de Sousa Santos, as quais, até hoje, nunca foram editadas nem gravadas.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ir à Índia e descansar



Leio no suplemento Ípsilon do Público de 15 de fevereiro, num artigo de São José Almeida sobre Nuno Júdice e a capacidade (ou falta dela) dos intelectuais portugueses intervirem na sociedade, que já Fernando Pessoa comentava terem os portugueses descoberto o caminho marítimo para a Índia, mas depois ficaram a descansar.

Mais um exemplo de como Portugal encontra em si, ou no seu povo, defeitos que não encontra nos outros. E eu pergunto:  Não se poderá adaptar o que Pessoa disse, sem a mínima alteração do seu sentido, aos norte-americanos? Eles descobriram o caminho interplanetário para a Lua, mas depois ficaram a descansar. Pois onde está o desenvolvimento esperado para as viagens espaciais, nos 40 ou 50 anos que já passaram desde esse tempo dos cosmonautas pioneiros?

Afinal, também nisto, os portugueses não são os únicos a quem podemos assacar defeitos. Daí o meu apelo:  Acabe-se de vez com os nossos absurdos complexos de inferioridade!



P.S. por Luz Compasso:

Adoro criar blogs e ultimamente tenho analisado a conveniência que é para todos seguir blogs que apresentam um trabalho sério e profissional. Por esta razão propus ao meu marido que se associasse ao “Movimento de Blogs Unidos”. A quem gosta de escrever para um público exigente e contribuir com informação de qualidade e que inspire a uma elevada criatividade, sugiro que entrem nos seus blogs e leiam as dicas. Depois de algumas horas de leitura levantei os olhos e agradeci os benefícios, a equidade de quem dá sem olhar a quem.


segunda-feira, 4 de março de 2013

ONÉSIMO T. ALMEIDA E A GÁVEA BROWN

ONÉSIMO T. ALMEIDA E A GÁVEA BROWN



Creio ter sido no número de julho a dezembro de 1981 que esta revista publicou uma entrevista a uma cientista portuguesa, então residente em Nova Iorque, na qual ela fez algumas declarações de que eu, em certa medida, discordei. Dizia que os portugueses daquela época eram ainda “guerreiros que não trabalham”, que sentiam prazer “em passar uma noite na conversa”, pouco votados ao esforço e à “solidária solidão” que são necessários para estar na vanguarda de qualquer atividade. Dava o exemplo de um afilhado português que gostava muito de nadar mas que, na opinião dela, nunca viria a ser um campeão.

Escrevi ao diretor da revista a seguinte carta (aqui reproduzida com a nova ortografia) que ele, no seu pleno direito, entendeu não publicar.


Professor Onésimo T. Almeida
Box O, Revista Gávea Brown
Brown University
Providence, RI 02912
Exmo. Professor Almeida:

A leitura do interessante número da Gávea Brown que dedicaram à doutora Ana de Brito despertou-me o desejo de manifestar uma certa discordância com o pano de fundo que se percebe sem se ver. Submeto-lhe para possível publicação os comentários que teci na forma de carta aberta à doutora Ana de Brito, pessoa real que na verdade me merece a mais alta consideração pelo seu prestígio científico e que tive o prazer de conhecer, embora só fugazmente.

Quanto a mim, sou professor catedrático na City University of New York; a minha especialidade científica é a matemática e não a biologia mas os mundos de uma e de outra não são totalmente distintos. Tenho, porém, mantido estreitos e frequentes contatos com Portugal. Este ano, por exemplo, encontro-me a passar uma licença sabática no departamento de matemática da Universidade de Coimbra. Esta visita levou-me realmente a confirmar as minhas suspeitas de que Portugal não é já exatamente aquilo que se retrata no número dedicado à doutora Ana de Brito; e por isso me decidi a enviar-lhe o meu comentário.

Cumprimentos do

J. M. S. Simões-Pereira

[Nota: Ana de Brito não era o verdadeiro nome da entrevistada!]
CARTA ABERTA À DOUTORA ANA DE BRITO(*)

Senhora Doutora Ana de Brito:

A maioria daqueles que, como nós os dois, nasceram há quatro décadas em Portugal, sabem que não é preciso haver arranha-céus para haver janelas de onde se vê o horizonte. Basta haver colinas; e a sua Lisboa, como a minha Coimbra, têm colinas e não tinham então arranha-céus.

Havia uma varanda na casa onde eu morava de onde todo o ano se via o pôr-do-sol e, embora eu nunca tenha escrito poesias, ali sentia, por vezes, o que os poetas sentirão. O que lhe vou contar, vivi-o nessa varanda.

Tinha eu uns catorze anos e foi num entardecer na primavera. É um tempo do ano em que há, em Portugal, muitas andorinhas e àquela hora o seu voar é muito alegre, rápido, nervoso, quase louco. Nessa tarde, sem que elas a vissem, voando mais alto de que todas, serena, calma, batendo as asas só de vez em quando, surgiu uma ave de grande envergadura que se dirigia para o ocidente. Fiquei a olhar aquela ave solitária, determinada no caminho a seguir, forte, imperturbável, voando em direção ao sol poente. Surpreendeu-me que ela não pousasse; até a ver como um ponto minúsculo na distância, prosseguiu segura, altiva, corajosa.

Seria por ter visto uma ave assim que Richard Bach criou o John Livingston Seagull? Talvez. Richard Bach acreditou que em cada um de nós habita um John Livingston Seagull. Eu não. Por isso, para mim, aquela ave invulgar tornou-se um símbolo. Não de todos nós, mas apenas de alguns. Apenas daqueles que então, em Portugal, embora frequentes vezes conversassem, não passavam todas as noites a fazê-lo. Apenas daqueles que, isoladamente, sem mesmo terem tido o estímulo de verem o estrangeiro, num mundo que os não apoiava, sem estruturas, sem recompensas, sem equipas, sem a admiração da maioria ou de minorias, escolhiam um destino para a sua vida e partiam em direção a ele, inabaláveis. Um destino escolhido por serem sonhadores, por crerem que existe alguma coisa mais que a mediocridade e que alcançá-lo vale o preço do esforço e do sacrifício.


De entre estes portugueses de quem falo, tenho, e tinha já, visto vários triunfar. Em tudo. Até na natação. Onde a imagem de um Joaquim Baptista Pereira, entrevistado depois de vencer a travessia do Canal da Mancha no seu ano, foi uma das maiores lições da minha infância: apontava ao jornalista o local do Tejo onde se treinara e dizia-lhe com simplicidade “olhe, foi ali, sozinho, que passei muitas horas a nadar e a sonhar”. Exemplo de um Português vivendo em Portugal que, no desporto do seu afilhado, tinha talento e foi um campeão.

Caso único? Não, já nesse tempo os havia, homens e mulheres, no desporto, no espetáculo, na matemática, na música, na medicina… Gigantes. Porque se fizeram a si próprios, porque não tiveram a seu lado, a fazê-los crescer, a ajudá-los a vencer o desânimo, a educá-los na liberdade ou na disciplina, um treinador, um promotor, um supervisor… Gigantes porque ousaram ombrear com aqueles que, tendo nascido noutros países, não precisaram de se fazer, pois tiveram o apoio dedicado, permanente, muitas vezes quase exclusivo e privado, de treinadores, promotores, supervisores… Gigantes que nos merecem, pelo menos, o respeito de não ignorarmos que os houve.

A imagem que cada um de nós tem de Portugal é evidentemente subjetiva: a sua como a minha. E também é subjetiva a imagem que temos de outros países. Em todo o mundo, porém, há coisas que mudam e coisas que permanecem porque também em todo o mundo as mensagens da verdade atravessam fronteiras, por mais cerradas que elas sejam, e encontram sempre quem esteja preparado para as receber.

Eu compreendi quando ainda era muito jovem – e confesso sentir orgulho nisso – que depois da minha geração viria outra ainda melhor que a minha. E compreendi também que cada geração deve muito àquelas que a precederam. Hoje, os jovens de Portugal que quiserem voar a grande altitude e para isso tiverem força já encontram, com uma facilidade que nós não tivemos, quem os treine, promova, supervisione. Por isso a nova geração portuguesa já é mais que um punhado de heróis isolados.

Ainda estará viva em Portugal a tradição dos “guerreiros que não trabalham”? Eu penso que não, felizmente. Ainda existirá em Portugal o prazer de “passar uma noite na conversa”? Eu penso que sim, felizmente. Felizmente porque – para quem gostar, claro! – conversar não é só perder tempo, como o não é jogar o golfe, correr mini-maratonas, ver basebol ou ver televisão. Prazer português, prazeres americanos. Conversar espelha e é a capacidade portuguesa de ser humano, coexiste com a tendência para formar amizades que não nascem à força de artifícios, que não se nutrem no uso sem significado do primeiro nome ou do tu instantes depois de um “how do you do?” ou de um “hi!”, mas que também não se destroem sem causa, nem, muito menos, se esquecem.


Concordo que Portugal é ainda, em certas áreas, que não a Ciência nem o Desporto, um país onde muitas pequenas aves se sentem felizes porque lhes é possível ignorar a existência das grandes; mas é também um país que tem sempre tido águias solitárias, voando de olhos postos na distância, subindo mais alto para ver para além do horizonte… A vida deu-me o privilégio de testemunhar que muitas de entre elas, não obstante conhecerem bem aquilo a que chama a sua “solidária solidão”, gostam de conversar. Afinal conversar, tal como fazer poesia, também é criar…

Luso-americanamente seu

J. M. S. Simões-Pereira



(*) O professor Onésimo T. Almeida, apesar do seu espírito aberto à discussão e ao contraditório, entendeu não publicar na revista Gávea Brown, da qual era diretor, esta minha carta. Para que tudo fique esclarecido, Ana de Brito era um falso nome da conhecida investigadora em Biomedicina Maria de Sousa, também amante da poesia, Prémio Universidade de Coimbra 2011, sobre quem June Goodfield tinha escrito um livro intitulado “An Imagined World: A Story of Scientific Discovery”, que visava focar, usando o seu caso, o que é a atividade de investigação científica. Nessa história, à protagonista, que era na vida real a Maria de Sousa, a escritora chamava Ana de Brito.