domingo, 28 de outubro de 2012

Ainda a poesia de Castro Nunes

Voltar do Além?
Ou voltar de mais perto?


O Doutor João de Castro Nunes é um amigo com um extraordinário talento de poeta. É viúvo e continua a sentir um amor imenso pela Rucinha que foi sua esposa durante longas décadas de felicidade. O soneto que a seguir transcrevo é da sua autoria e compô-lo em março deste ano de 2012.



MAIS LINDA DO QUE NUNCA

Hoje sonhei, amor, que tu voltaste
mais linda do que nunca, adolescente,
e que devagarinho me beijaste
para eu não acordar subitamente.

Tinhas recuperado a juventude
envolta numa auréola de estrelas
que me ofuscavam tanto que não pude
ver-te logo as feições por culpa delas.

De ti por todo o ar se difundia
um doce aroma como julgo terem
os anjos que te fazem companhia.

Se eles, ó meu amor, não se opuserem,
vem sempre que puderes, tal como agora,
sorrir-me em sonhos… pela noite fora!

Quando o li pela primeira vez, pensei no grande amor que eu também tenho pela Maria da Luz, a mulher com quem casei. Com uma extraordinária sincronia, no dia em que o li, a minha Luzinha parecia ligeiramente agastada, sem que eu conseguisse descortinar o motivo. Depois de o ler, apercebi-me que eu podia ter sonhado o mesmo, porque a sentia afastada, mas queria que ela voltasse, voltasse a exteriorizar o mesmo amor sem o qual dificilmente sobrevivo, voltasse a “sorrir-me talvez em sonhos”... e também quando acordado, pois felizmente ainda estamos ambos neste mundo.

Semelhante ao de Castro Nunes, o meu apelo a Deus e aos anjos é que não se oponham a que nós saibamos aproveitar o estarmos cá, para nos amarmos sem sobressaltos, para nos “beijarmos devagarinho”, para mantermos a “juventude” da esperança, para difundirmos o “aroma” dos que agradecem a dádiva da vida, para seguirmos a nossa estrada com uma total confiança um no outro. Como sempre tivemos. Para conseguirmos acabar de escrever o livro de nós dois, para que todos conheçam os nossos nobres sonhos e que ainda tenhamos tempo para os realizar.

sábado, 27 de outubro de 2012

DOUTOR JOÃO DE CASTRO NUNES,

DOUTOR JOÃO DE CASTRO NUNES
É um amigo que muito estimo. Homem de Letras, professor universitário que foi durante longo tempo, mantém uma impressionante vivacidade de espírito nos seus 92 anos de idade.

Tive ontem, 25 de outubro de 2012, o gosto de conversar com ele pelo telefone. Usa muito a Internet e, a propósito de blogues, dele e meus, recordámos figuras da época em que éramos estudantes, pois apesar das duas décadas de diferença entre a idade dele e a minha, houve pessoas que ambos conhecemos. Por exemplo, os meus professores, de quem falo em cartazes deste blogue, Manuel Esparteiro, Pacheco de Amorim, o pai Diogo e o filho José que foi contemporâneo dele, e o João Pereira Dias que, além de ter sido diretor da Faculdade de Ciências, teve notada ação política. Sobre este, ele disse-me que teria falecido de ataque cardíaco pelo desgosto de ver destruído um sítio arqueológico onde hoje se situa o aeródromo de Coimbra, por ordem do médico e político Bissaya Barreto, um amigo íntimo de Salazar. Espantoso, mas acredito que isso aconteceu, pois Bissaya Barreto era conhecido por certos golpes rápidos que arquitetava quando queria levar por diante os seus projetos. Estávamos no tempo do Estado Novo… mas truques destes continuam a fazer-se em política.

Sentei-me hoje ao computador e pedi a um motor de busca que me falasse de João Castro Nunes. Mais uma vez, o seu talento poético logo surgiu. Faz poesia da difícil, mas que se compreende, clássica devia eu talvez dizer. São principalmente sonetos… com métrica, com rima, com palavras que fazem sentido. São poemas que dizem sempre algo.

Sensibiliza-me o imenso amor que teve pela sua esposa, companheira de longas décadas, e que continua a ter pela sua memória. A ela, à sua Rucinha, como carinhosamente lhe chama, que terá conhecido há 70 anos, quando ele era um jovem de 22, tem dedicado centenas de poesias. São tão cheias de amor que ao lê-las me perturbo. Sintonizo-me com ele, pois julgo não ser menor o amor que eu próprio tenho pela minha Mulher.

Não duvido que o amor dele por ela foi sempre correspondido: ambos partilharam a fé num Deus que sem dúvida os abençoou, embora não lhe tivesse evitado a ele a dor de a ter perdido. Mas chego a acreditar que ele compreende a opção de Deus: se tivesse sido ele o primeiro a partir, ela teria sofrido e ele por certo não o quereria.

Há quem se sinta completamente só no outono da vida sem nunca ter perdido um grande amor; esses não sofreram com perdas, mas sofrem com a solidão. Ou então tiveram perda, mas não por desígnio exclusivo de Deus; talvez por escolha de quem já não retribuia amor. Não sei o que será menos dramático.

Lembro, a propósito dos que muito amam, um caso que me contaram: um homem que adorava a sua mulher, sabendo-se atacado por doença incurável e não querendo que ela sofresse com a previsível agonia dele, evitou-a pondo termo à vida. E ela, de facto, sobreviveu-lhe longos anos. Foi uma escolha que se compreende, embora, por princípios religiosos, muitos – e entre eles Castro Nunes – não se permitiriam uma tal opção.

Termino reproduzindo duas das suas poesias que li muito recentemente. A primeira é dedicada à sua querida companheira:

MAIS LINDA DO QUE NUNCA

Hoje sonhei, amor, que tu voltaste
mais linda do que nunca, adolescente,
e que devagarinho me beijaste
para eu não acordar subitamente.

Tinhas recuperado a juventude
envolta numa auréola de estrelas
que me ofuscavam tanto que não pude
ver-te logo as feições por culpa delas.

De ti por todo o ar se difundia
um doce aroma como julgo terem
os anjos que te fazem companhia.

Se eles, ó meu amor, não se opuserem,
vem sempre que puderes, tal como agora,
sorrir-me em sonhos… pela noite fora!

João de Castro Nunes, 2012.03.21

A segunda interpela Fernando Pessoa; e sem querer de modo algum manchar a admiração oficial por esta figura que parece ter sido imposta aos portugueses, não me coíbo de repetir um àparte que ouvi há anos a uma professora de Português do Ensino Secundário e que subscrevo inteiramente: "Tanto Pessoa, até enjoa!" Também João de Castro Nunes parece - que ele me perdoe se erro - que a subscreveria!

AMOR AUSENTE

Teu mal, Pessoa, foi não ter amado
a sério uma mulher, como eu amei,
mãe de oito filhos que eu alimentei
sob o carinho seu… tão partilhado!

Falar de amor sem nunca o ter provado
mesmo que fora dos grilhões da lei
foi coisa que jamais… eu perfilhei
por ser um sentimento simulado.

Ao que julgo saber, caro Pessoa,
a mulher para ti, celibatário,
nunca foi mais que tema literário.

Contrariamente àquilo que apregoa
por esse mundo fora muita gente,
o amor nos versos teus se encontra ausente!

João de Castro Nunes, 2012.10.26


















sexta-feira, 19 de outubro de 2012

FERNANDO PINTO COELHO

Agora um professor de Química que admirei durante a minha licenciatura em Matemática em Coimbra de outubro de 1958 a julho de 1962:

FERNANDO PINTO COELHO

Fernando Pinto Coelho foi meu professor numa cadeira anual do primeiro ano que se chamava Química Geral. Menciono-o, embora ele não fosse matemático, porque a sua personalidade me cativou. Era um pedagogo notável. As suas aulas tentavam despertar o interesse a estudantes que não eram futuros profissionais de Química. Por mim, nem sequer gostava de Química, mas reconheço que Pinto Coelho tentava -- e conseguia! -- despertar o meu interesse por muitos dos assuntos que faziam parte do programa da cadeira.


Mesmo assim, estudei muito pouco. Aprovou-me com uma classificação muito baixa (11 valores na escala de 0 a 20 em que 10 é o mínimo para aprovação), mas eu definitivamente não merecia mais. No fim do ano letivo, ele gostava de conversar rapidamente com cada estudante em particular: chamávamos-lhe o “confessionário”. A mim perguntou se eu não tinha gostado da parte dos átomos com as suas nuvens de eletrões, se isso não tinha um certo sabor matemático. Se bem me recordo, respondi-lhe que sim mas que, de facto, tinha dado prioridade às disciplinas de Matemática e por isso reconhecia que tinha estudado pouco da dele.


A julgar por opiniões de membros atuais do Departamento de Química (ver Sebastião J. Formosinho: Nos Bastidores da Ciência 20 anos depois, Edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007), Pinto Coelho foi um dinamizador das atividades de investigação em Química em Coimbra; obviamente, por mim, não posso dizer nada sobre o seu contributo nesta vertente.


Pinto Coelho tinha uma filha que era nessa altura aluna universitária. Com a esposa, ele costumava passar as férias de agosto na Figueira da Foz. Gostava de dar grandes passeios a pé, sozinho. Mas também gostava de se sentar a conversar com pessoas das suas relações e amizade.


Uns 10 ou mais anos depois de ter sido aluno dele, quando eu já tinha uns anos de trabalho profissional atrás de mim, também eu me encontrava com ele em férias e recordo-me de uma divertida conversa que tivemos aí por volta de 1968 ou 1969. Tinha sido inaugurada uma discoteca (talvez a primeira na Figueira da Foz) que se chamava Pessidónio: o nome prestava-se a gracejos pois havia quem pronunciasse Discoteca Possidónio. Mas ela ainda hoje, em 2012, existe e tem o mesmo nome! Eu tinha lá estado com um grupo de moças e moços, mas já todos tínhamos passado e bem passado a idade dos 20 anos. Como naquele tempo constava que toda a gente que frequentava discotecas ia para se drogar, ele perguntou-me como é que eu me sentia quando de lá saí. Como nem sequer álcool tinha bebido, respondi que me senti bem, como habitualmente. Ele e a esposa estavam sentados junto dos meus pais e de um outro casal e ele, para confirmar a minha resposta, virando-se para o meu pai e a minha mãe, perguntou-lhes se não tinham notado nada de estranho no meu comportamento…


Foi uma troca de impressões que sempre achei divertida e hoje recordo com um nadinha de saudade.

sábado, 13 de outubro de 2012

A CRISE, O DÓLAR E O EURO

A CRISE, O DÓLAR E O EURO

Há duas afirmações a respeito da crise que se sente em Portugal e noutros países europeus de cuja validade estou convencido:
1) A crise é provocada por aqueles que, caso o euro sobreviva, receiam a perda da influência e do poder do dólar a nível internacional;

2) A crise terminará imediatamente quando esses mesmos se convencerem que o euro vai sobreviver e, portanto, as suas maquinações são inúteis.
Não afirmo que seja o povo americano que quer destruir o euro; nem o Presidente Obama ou o candidato republicano, seu adversário na eleição que se aproxima. São os senhores do dólar, cujos nomes o grande público nem conhece, talvez os grandes grupos financeiros, ou Wall Street, ou os grandes bancos, talvez um Goldman Sachs de que fala o número de 11 a 17 de Outubro da revista Sábado.
Não se compreende que as agências que desacreditam as dívidas dos países europeus… sejam todas americanas! Porque não existe uma agência de rating europeia que analise a dívida soberana dos EUA? Ou uma sedeada nos países do euro que avalie a dívida soberana do Reino Unido?
Já vimos os senhores do dólar pretenderem que a China altere a paridade da sua moeda, o renmimbi. Esta tentação dos poderosos dos EUA de moldarem o Mundo à conta dos seus interesses, é óbvia. Já todos o sabemos, olhando as suas campanhas militares. Como intervenções militares na Europa seriam o cúmulo do absurdo, a alternativa que lhes resta é o ataque ao euro, procurando desfazer a união entre os países que o adotaram, acometendo em primeiro lugar, como é evidente, os que são mais fracos. Fator poderoso de união, a moeda única é um passo de enorme significado para a criação dos Estados Unidos da Europa, que urge concretizar.
No dia em que os senhores do dólar perceberem que o euro não morrerá, nesse mesmo dia a crise que hoje vivemos acabará. Nós, simples cidadãos a sofrer, na pele, as consequências do egocentrismo deles, só esperamos que os responsáveis europeus compreendam, tão bem como nós, essas manipulações, e avancem no único caminho que permitirá à Europa continuar o seu papel no Mundo: a união política e monetária com um enquadramento fiscal equitativo tão homogéneo quanto possível.
Termino com uma nota de otimismo: Quando a crise acabar, haverá um período de desenvolvimento e prosperidade, pois os senhores do dólar, vendo que não destruíram o euro, vão seguir o velho provérbio que diz “se não os podes vencer, junta-te a eles.”
Na Europa, não há muito mais tempo a perder!
2012-10-13
J. M. S. Simões-Pereira

MANUEL NETO MURTA

Recordando ainda um outro professor da minha licenciatura em Matemática, que frequentei, entre setembro de 1958 e julho de 1962, na Universidade de Coimbra: 


MANUEL NETO MURTA


Em contraste com Beda Neto, Manuel Esparteiro, Pereira Dias e Manuel dos Reis, Neto Murta estava ainda nos cinquenta e poucos anos de idade quando fui aluno dele. Era também um homem calmo e por vezes sorria, mas dava a impressão que gostava de tornar complicadas certas coisas simples, pelo prazer de valorizar a sua própria capacidade de as explicar. De qualquer modo, ficou ligado à minha carreira, pois foi quando aluno dele, em Cálculo das Probabilidades, que me indicou o primeiro livro que li de Matemática Discreta: uma obra de John Riordan, intitulada “Introduction to Combinatorial Analysis”. Matemática Discreta veio a ser o campo a que me dediquei nos meus tempos de investigador e esse livro acompanhou-me até hoje.
O professor Murta tinha feito o seu doutoramento com uma tese de Física Matemática. No 3.º ano, era ele que regia a cadeira com este nome e a matéria que ensinava estava em parte contida na sua tese. Por essa razão, a mim parecia-me aquele programa demasiadamente específico, embora não deixasse de ter interesse. Mas, como estudantes, nós gostaríamos de ter ouvido falar de temas que nesses tempos eram mais apaixonantes, como, por exemplo, a teoria da relatividade, que sabíamos ser lecionada em Lisboa.
Fosse como fosse, Neto Murta era um homem acessível, não distante como alguns outros; cheguei a conhecer a sua esposa, uma senhora muito simpática e dotada de grande simplicidade. Não tinham filhos, mas tinham sobrinhos. Creio que um deles é hoje um dos mais prestigiados médicos oftalmologistas de Coimbra.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

LUIS ALBUQUERQUE


Mais um professor da então chamada Secção de Matemática da Universidade de Coimbra, de quem fui aluno quando tirei a licenciatura entre 1958/59 e 1961/62:


LUIS ALBUQUERQUE


Luís Albuquerque era professor de Matemática e, consequentemente, era de esperar que a sua área de investigação e docência fosse a Matemática. Ele foi de facto, no início da carreira, coautor (com João Farinha, um assistente da Faculdade de Ciências, falecido relativamente novo, e que eu já não conheci) de duas boas coletâneas de problemas que nós usámos, como estudantes:
1) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Álgebra e Geometria Analítica", volumes I e II, Coimbra Editora, Lda. 1947/48;
2) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Geometria Descritiva", Atlântida, Coimbra, 1951.
Curiosamente, neste último, indica-se uma lista de publicações anteriores de Luís Albuquerque, incluindo um livro de 150 páginas intitulado "Algumas Propriedades dos Conjuntos de Espaços Abstratos", edição da Empresa Guedes, Porto, 1944, e um opúsculo sobre história da Matemática, aos quais não tive acesso.
Como seu aluno lembro-me dele como um homem um pouco frio, embora extremamente educado e acessível: estive, algumas vezes em sua casa. Sublinho que, quando eu era estudante universitário, os professores não tinham gabinetes de trabalho na Faculdade, nem obviamente a legislação exigia -- nem podia exigir -- que os docentes tivessem horários para atendimento dos alunos. Assim, era nos intervalos entre duas aulas que podíamos trocar umas breves impressões para esclarecer alguma dúvida ou pedir indicações bibliográficas. Quando queríamos falar mais demoradamente com algum professor, pedíamos-lhe que nos recebesse em sua casa; é verdade, porém, que só os bons alunos tinham coragem para fazer tais pedidos.
Luís Albuquerque era um homem com uma vasta cultura histórica e, a partir de certa altura, a sua atividade centrou-se essencial, para não dizer exclusivamente, na História dos Descobrimentos, uma área onde a sua ação foi notabilíssima. A obra de investigação que nos legou foi sobretudo nesta área. Dinamizou um Centro de Estudos do Mar e das Navegações que veio a chamar-se Luís Albuquerque quando, mais tarde, Alfredo Pinheiro Marques o dirigiu, mas que, infelizmente, me parece que estiolou em anos recentes.
Apesar dos seus interesses se terem claramente desviado da Matemática, apoiou diversos estudantes no início das respetivas carreiras de investigação. Tinha-se dedicado à teoria das matrizes e teve seguidores que vieram a doutorar-se nessa área como o meu contemporâneo e amigo Graciano Neves de Oliveira, um investigador ativo e prolífico que por sua vez entusiasmou outros e veio a criar uma notável escola em matrizes centrada em Coimbra, mas que ultrapassou fronteiras. Se o Graciano foi pai e obreiro dessa escola, Albuquerque teve nela sem dúvida o papel tutelar de seu avô.
Mencionemos enfim a sua atividade política. Homem de esquerda, foi Governador Civil de Coimbra no pós-25 de Abril, um cargo que, não duvido, ocupou muito do seu tempo e o afastou da universidade no último período da sua atividade como professor.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

LUÍS BEDA DE SOUSA TAVARES NETO


Hoje mais um professor da minha licenciatura em Matemática em Coimbra entre 1958/59 e 1961/62


Luís Beda de Sousa Tavares Neto



Nós, os alunos, não conhecíamos o seu nome completo. Todos o referíamos como Professor Beda Neto. Dava Álgebra Superior ao 2.º ano e Análise Superior ao 3.º, duas cadeiras, ambas anuais.
Nos exames, não era temido como o Manuel Esparteiro nem tinha a fama de generoso que tinha o Pacheco de Amorim. Era medianamente exigente e as matérias que ele ensinava não eram extensas.
Víamo-lo como um homem fechado, um homem que parecia viver num espaço limitado. Dir-se-ia que sentia alguma frustração. O tratado que naquela época era a referência principal para o estudo da Análise era da autoria de um francês, de nome Goursat. Lembro-me de ele me dizer um dia que tinha também projetado, ou talvez mesmo começado a escrita de uma emulação do Goursat… um Goursazinho foi a expressão que ele usou; começava com a sua tese de doutoramento que ele teria desenvolvido posteriormente. Mas nunca chegou a publicar. Era essa sua fragilidade que me tocou: apesar de minha juventude  eu não tinha nem sequer 20 anos  senti pena daquele senhor que assim me confessava um sonho que não teve coragem de realizar.
Além das suas dissertações, não sei de quaisquer outros trabalhos científicos que tenha publicado. E mesmo como responsável pela cadeira de Álgebra Superior, não tinha admiradores; havia quem considerasse que a matéria por ele dada não seria a mais adequada: a álgebra clássica, já nós a conhecíamos das Matemáticas Gerais do 1.º ano; seria de esperar, diziam os seus detratores, que ele desse o que então se chamava a álgebra moderna, a teoria dos grupos, anéis e corpos que o colega da Universidade de Lisboa dava na cadeira com o mesmo nome. Era mais uma razão que o apagava; não adivinho, se ele tinha ou não conhecimento destas críticas.
E apagado sempre ele foi até ao fim; quando se jubilou, diz-se que terá ido viver para fora de Coimbra, na casa de uma sobrinha. E nunca mais, ninguém ouviu falar dele.



domingo, 7 de outubro de 2012

MANUEL DOS REIS versus AMÉRICO TOMÁS

Mais um professor de quem fui aluno na Universidade de Coimbra quando aí cursei Matemática entre 1958/59 e 1961/62

Manuel dos Reis vs Américo Tomás

Recordarei aqui Manuel dos Reis, ou, melhor, Doutor Manuel dos Reis, como ele sempre assinava, pois a palavra Doutor integrava a sua rubrica e parece que a considerava como sendo parte do seu nome. Vaidade? Talvez, ele cresceu num tempo em que “lente” era a palavra usada para designar os professores universitários. Lente significava aquele que lê. O lente pegava num livro e lia, talvez até não conhecesse o conteúdo, apenas garantidamente sabia ler. E os estudantes ouviam. E tanto bastava para que os lentes fossem alvo da admiração e do respeito gerais.

Seria este o mundo em que Manuel dos Reis, na década de 1960 já próximo da jubilação, nasceu e viveu os primeiros tempos da sua atividade? Nós, os alunos, sempre o vimos como um homem de aspeto irascível, sem nunca sorrir, sempre de má catadura, totalmente inacessível! Dava Mecânica Celeste, uma cadeira anual, aos finalistas da licenciatura em Matemática. O programa era coberto pelas primeiras 200 páginas do “Traité de Mécanique Celeste”, um tratado em 4 volumes, com um total de mais de 2000 páginas, da autoria de um especialista francês, F. Tisserand, professor em Paris. Não sabíamos se Manuel dos Reis alguma vez teria ensinado outra matéria. Mas o ambiente do tempo era tão rígido, que a sua postura e a sua atividade não destoavam desse ambiente. Um homem que foi seu assistente, o Eng. Francisco Alves Ferreira, disse-me que, quando ele andava ocupado a redigir algum trabalho de caráter científico e lhe perguntavam quando ia ser publicado, ele respondia sempre que ainda não lhe tinha dado “a forma definitiva”.
                                                                ***
Em Coimbra, o chamado quarto de hora académico era uma tradição: qualquer coisa marcada para uma determinada hora começava sempre um quarto de hora mais tarde e não se falava de atraso, pois era uma regra seguida por todos. Manuel dos Reis, para as suas aulas, ampliou o quarto de hora para a meia hora, mas era rigorosamente meia hora, quer dizer, o seu atraso era… pontualíssimo. Chegava sempre de táxi. Nesse tempo, nenhum docente tinha gabinete de trabalho na universidade; ele por acaso até tinha porque era o diretor da biblioteca, na qual havia um pequeno escritório à entrada que ele poderia utilizar. Não me lembro de ouvir dizer que ele lá passasse tempo.
Contava-se que, todas as semanas, se deslocava a Lisboa e se encontrava com amigos na Pastelaria Versalhes, que já existia no mesmo local onde ainda hoje se encontra. Julgo saber que ele era membro da Academia de Ciências, mas desconheço totalmente a sua produção científica. Por certo terá sido autor, pelo menos, das dissertações exigidas para o doutoramento e a agregação (ou concurso para professor extraordinário, como se dizia na altura). Em Coimbra nunca aparecia em quaisquer eventos sociais, dos poucos que havia. Constava que era casado, mas julgo que não tinha filhos. Há um facto que parece indicar que ele terá desenvolvido qualquer profunda aversão a Coimbra ou, pelo menos, ao Departamento de Matemática onde durante tantos anos trabalhou. É que após o seu falecimento em 1990, certamente por indicação sua, a família doou à biblioteca da Universidade de Aveiro (não à de Coimbra!) o acervo bibliográfico que ele possuía: alguns milhares de livros sobre Matemática, mas não só. Pessoalmente acredito que a má catadura, que perante nós, alunos, sempre exibiu, tivesse a ver com qualquer misterioso ódio que nutria pela sua própria instituição.
                                                                      
                                                            ***
Talvez transpareça do que escrevo que eu não admirava este homem. É falso. Quero prestar a minha homenagem ao seu caráter de cidadão que eu vi não vergar a espinha perante os deuses do salazarismo. Foi um episódio sobre o qual escrevi um artigo, em 22 de maio de 1991, no Jornal de Coimbra, um semanário que então se publicava.
Tudo aconteceu a 17 de abril de 1969, o dia da inauguração do edifício onde se ia instalar, e continua hoje instalado, o Departamento de Matemática. Na mesa de honra, Américo Tomás então Presidente da República, o Ministro da Educação e o das Obras Públicas, o Reitor da Universidade, e Manuel dos Reis, como decano da Faculdade de Ciências. Rebenta o célebre incidente em que Alberto Martins, um futuro ministro, que então era estudante e presidia à Associação Académica, se levanta da sua cadeira na assistência e pede, aliás respeitosamente, ao Almirante Américo Tomás, para usar da palavra. Tomás pareceu ficar atrapalhado. Ele próprio se levanta também e responde, apontando o dedo ao estudante, “mas agora vai falar o senhor ministro das obras públicas…” Alberto Martins senta-se outra vez e todos nós ficámos à espera, que depois do senhor ministro falar, Tomás, num gesto de homem sem medo, interpelasse o estudante: “Fale então, senhor estudante, dou-lhe agora a palavra…” Tal, porém, não aconteceu.
O ponto que aqui quero salientar tem duas vertentes: uma é que, no discurso que Manuel dos Reis tinha proferido nessa cerimónia, antes do Alberto Martins se levantar, não houve palavras de sabujice às autoridades. Numa atitude raríssima naquele tempo, Manuel dos Reis falou com objetividade sobre as vicissitudes da história recente da Matemática em Coimbra; o seu discurso está publicado na íntegra na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, volume 42, (1969), páginas 297-300. A outra vertente é que, quando Tomás se levantou para responder ao pedido do estudante, toda a mesa em peso se levantou, exceto Manuel dos Reis. Numa fotografia que o Jornal de Coimbra tinha publicado, e republicou com o meu artigo em 22 de maio de 1991, vemos esse homem que não sabia sorrir permanecer sentado, enquanto todos os outros estão em pé. Distração momentânea? Não viu que os outros se levantaram? Não creio.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MANUEL MARQUES ESPARTEIRO

Neste ano da minha própria jubilação, continuo a recordar e a registar aqui as minhas memórias relativamente a alguns dos que foram meus professores quando frequentei a Universidade de Coimbra, entre outubro de 1958 e julho de 1962. Hoje recordo o
Manuel Marques Esparteiro

Relembro, no 1.º ano, Manuel Marques Esparteiro, o homem que dava as chamadas Matemáticas Gerais e depois, no 2.º ano, o Cálculo Infinitesimal, cadeiras anuais, pois naquele tempo poucas eram as cadeiras lecionadas num só semestre. Era um professor extraordinariamente exigente: para ser aprovado nas suas cadeiras, tínhamos de passar em primeiro lugar uma prova escrita e, em seguida, uma prova oral. Era esta que nos parecia terrível. Hoje penso que era útil, pois nos habituava a expor e a não ter medo do público; estas provas eram públicas e os colegas, por exemplo, podiam assistir e efetivamente faziam-no, até para irem ouvindo as perguntas que o professor decidia colocar mais frequentemente.
Como material de estudo, no tempo em que não havia nem fotocópias nem Internet, tínhamos livros na Biblioteca, que era excelente, não hesito em afirmá-lo. Eram essencialmente volumosos tratados, na sua quase totalidade escritos em língua francesa. Os professores portugueses não eram muito dados a escrever livros. O que tínhamos, sim, eram as chamadas “sebentas”, volumes dactilografados por algum estudante mais capaz de coligir bons apontamentos das aulas. Claro que esses volumes eram vendidos e os lucros eram para o estudante que os coligia. Havia um funcionário que os armazenava e, mediante uma pequena percentagem, servia de livreiro. O seu nome: o senhor Manuel dos desenhos, este qualificativo “dos desenhos” vinha de ele ser o responsável pelas portas de uma sala onde tinham lugar todas as cadeiras de Desenho que constavam do nosso curriculum: Desenho Rigoroso, Desenho de Máquinas, Desenho Topográfico…
Nos anos em que frequentei as aulas do Professor Esparteiro (1958/59 e 1959/60), então próximo da sua jubilação, havia a “sebenta” do Miranda, um conhecido e muito procurado explicador para alunos do 1.º ano; depois apareceu outro “autor” das respetivas sebentas que foi um condiscípulo um ano mais avançado e que veio aliás a fazer uma brilhante carreira de matemático como professor e investigador: o Graciano Neves de Oliveira.
Na verdade, Manuel Marques Esparteiro, como grande número de docentes universitários de então, não foi prolífico na escrita de livros ou trabalhos de investigação: sei que publicou uma dissertação para o seu doutoramento e uma outra para o concurso que equivaleria ao que hoje, em 2012, chamamos a agregação. Era assim naquele tempo! Não o condeno, pois embora não escrevesse, a sua cultura matemática era vasta e isso percebia-se por vezes nas aulas que dava.
Já jubilado, continuou a apreciar as coisas boas da vida. Costumava participar em almoços organizados, nos meses de verão, por uma empresa de seca de bacalhau, na Figueira da Foz. E embora preferisse as dietas vegetarianas, nunca, nesses almoços, se eximiu a uma boa sardinhada ou bacalhoada, enquanto comentava:  De vez em quando, também temos de fazer uma asneira!

Veio a falecer atropelado, creio que bem ultrapassados os 80 e muitos anos!



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

MEMÓRIAS DE MARIA M - A Sandra Matias hoje é casada e mãe de uma menina!

MEMÓRIAS DA MARIA M

Ela escreveu um livro de memórias. Memórias que começam na infância, dramática, como tinham de ser as da filha de pai pedófilo e de mãe que a olhava como se ela fosse lixo.

Eram assim os seus pais biológicos, disfuncionais, para usar um termo técnico: viam-na ambos como lixo, e diziam-lho… Porque sabiam que eles próprios eram lixo! E ela sofreu, sofreu muito, mas um dia encontrou os que chama seus pais de afeto e encorajou-se a registar o seu passado.

Hesitou em assumir que tudo aquilo era autobiográfico. Fingiu que era a história de uma amiga, entretanto falecida. Mas as marcas terríveis dessa infância paralisaram-na na adolescência e na juventude. Sofreu as marradas ou o cornejamento (bullying, dizem os que não querem traduzir o Inglês), de condiscípulos que troçavam da sua compreensível timidez. E já em plena juventude, até na escola de bombeiros que frequentava, ainda sofreu olhares oblíquos de colegas que não compreendiam a sua insegurança e não queriam ver a generosidade com que abraçara o lema que a encantou: “Vida por vida”.

Recordo uma frase que li quando eu próprio era adolescente: “O sofrimento é o verdadeiro curso superior da vida”. Não memorizei na altura o nome do seu autor. Penso que era uma citação de Manuel da Silva Gaio, mas passei a obra dele a pente fino e nunca a reencontrei, perguntei ao Google e não obtive resposta. Seja quem for que o tenha escrito, concordo inteiramente com o pensamento que exprime. Ela frequentou esse curso superior. E muita gente, com razões as mais diversas, também o frequentou. Eu também lá andei, embora com motivos total e absolutamente distintos. Só que me diplomei muito cedo; e ela não. Já jovem adulta, continuava a deixar-se dominar por estranhos complexos de tristeza e medo. Levou muito tempo a descobrir porque a atacavam, e que o intriguista, o maldizente, o acobardadito são sempre pessoas que se sentem falhadas. Não reparava que, como afirma um antigo provérbio, “o invejoso é aquele que se sente incapaz de competir com o invejado.”

Até que, finalmente, descobriu. E escreveu. E publicou. E quem ler o seu livro  sobretudo se o ler em algum período da vida em que se sinta cornejado  perceberá que tem de reagir e quanto mais cedo, melhor. É essa a mensagem, a lição, que nos traz a obra dela.

 A autora é uma nossa vizinha em Coimbra a quem ajudamos em momentos difíceis da vida dela.

Hoje ela é casada e mãe de uma linda menina. 

Parabéns à Sandra Matias pois venceu os seus traumas!