domingo, 30 de setembro de 2012

NUNO CRATO e JOÃO QUEIRÓ vs JOÃO PEREIRA DIAS

Mais um registo relativo a um professor de quando frequentei a Universidade de Coimbra, entre outubro de 1958 e julho de 1962 e um apelo a dois homens da atualidade: NUNO CRATO e JOÃO QUEIRÓ




João Pereira Dias

Um homem tranquilo! É a impressão marcante que me ficou deste professor. Regia uma disciplina anual do 1.º ano (Geometria Descritiva) e uma semestral do 2.º (Geometria Projetiva). A matéria destas aulas não é hoje coberta nos estudos conducentes à licenciatura ou a mestrados em Matemática: a geometria descritiva, e, em certa medida, também a projetiva, são consideradas mais importantes em Arquitetura ou Engenharia de Construção do que em Matemática. Para a sua prática, na atualidade, há software que muito facilita o trabalho, mas que é preciso dominar independentemente; pelo que pressupõem um conhecimento de recursos informáticos que nem todos os estudantes têm quando chegam ao ensino superior.

Nada sei sobre a carreira científica de João Pereira Dias, pois não conheço qualquer publicação de que tenha sido autor, nem sequer a sua tese de doutoramento. Sei, sim, e respeito-o por isso, que foi um cidadão interventivo, na medida em que tal era possível no tempo do Estado Novo salazarista.

Foi durante um longo período diretor da então chamada Faculdade de Ciências de Coimbra. Nos anos 30 e 40 do século passado, participou em análises e estudos sobre os planos da nova Cidade Universitária. Nessa qualidade, quando o Governo recusou subsidiar uma viagem a Madrid de dois professores que iriam visitar a cidade universitária madrilena para de lá trazerem informações úteis para o planejamento da de Coimbra, ele decidiu ir ele à sua própria custa, um ato de generosidade que muito diz sobre a sua dedicação à causa pública.

Julgo saber que muito se interessava pelo êxito da então chamada Secção de Matemática: alguém me relatou que, numa dada ocasião, ele se dirigiu às instâncias governamentais e conseguiu obter uma avultada verba para financiar a Biblioteca Matemática da Universidade de Coimbra.

Sublinharei que esta biblioteca foi durante muitas décadas uma referência no País, pela imensa coleção de revistas científicas que recebia. Tive ocasião de confirmar, nas numerosas visitas que fiz a instituições universitárias estrangeiras, que a nossa biblioteca ombreava, de facto, com as melhores que conheci. Compreenda-se aliás, que, em Matemática, o principal recurso para a investigação não são equipamentos sofisticados e caríssimos como os que são indispensáveis em Física, Química, Biologia, Medicina ou muitas outras especialidades científicas ou tecnológicas. O principal recurso é informação. Fazer investigação em Matemática, ao contrário de outras especialidades, onera relativamente pouco qualquer patrocinador, seja privado seja oficial, quer dizer, governamental. Talvez por essa razão, as bibliotecas de Matemática que visitei nos então chamados países do Leste (digamos, Polónia, Hungria, União Soviética) competiam em acervo com as melhores dos EUA, embora aqueles países tivessem imensas dificuldades com a troca de divisas e os pagamentos aos países do Ocidente. Escolhiam portanto, e muito bem, desenvolver o que era consentâneo com os seus condicionalismos.

Lamentavelmente, estes factos estão hoje esquecidos no nosso Portugal sempre em crise. E eu vejo definhar um organismo que conheci pleno de força e pujança. Não podemos pretextar que o digital é o papiro do futuro ou que a informação está hoje toda na Internet: está lá muita coisa, é certo, e, na minha opinião, deve lá ser posta toda a literatura matemática que está arquivada em livros e revistas esgotados. Mas a investigação em efervescência, viva e digna, tem de continuar a ser arquivada, em primeira-mão, em papel. Porquê? Porque este vai ser sempre legível; não vão deixar de ser fabricados leitores para este meio; vão, sim, desaparecer (na verdade, até já desapareceram) os leitores de fitas magnéticas, de “floppy discs”, de disquetes, e de quaisquer outros suportes digitais. E a Matemática, como tenho repetido muitas vezes, é uma Ciência – talvez a única – cujos resultados não se tornam obsoletos. Ou alguém afirmará que o teorema de Pitágoras é obsoleto? Ou a fórmula que dá a área de um retângulo? Ou a lista dos primeiros vinte números primos? E há quantos séculos foram obtidos estes resultados? Permanecem válidos!

Eu desafiaria os responsáveis de hoje a mostrarem-se à altura dos nossos antecessores, como o professor João Pereira Dias.

Apelo ao meu prezado colega de Coimbra João Filipe Queiró, catedrático de Matemática, membro do Conselho Geral da Universidade e agora também Secretário Geral do Ensino Superior, e ao Ministro Nuno Crato, outro amigo pessoal que muito prezo, igualmente matemático e incansável lutador pela qualidade da educação em Portugal, que encarem a biblioteca matemática de Coimbra com o interesse que ela merece e, num passo próprio do nosso tempo, avancem com a sua transformação no que eu chamaria um Centro Nacional de Documentação Matemática. Não é só com o número de doutorados que vamos exportar que nos prestigiamos. É também com a riqueza do conhecimento que possamos produzir e irradiar a partir das nossas instituições, que deverão manter-se abertas, facilitando a entrada, e não apenas a saída, dos que escolhem a investigação em – e a aplicação da – Matemática, como carreira profissional.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

JOSÉ BAYOLO PACHECO DE AMORIM



Neste ano da minha própria jubilação, quero recordar alguns dos meus professores, especialmente os que marcaram a minha juventude académica.
Começo pelo Professor Doutor

José Bayolo Pacheco de Amorim

Filho de um outro professor universitário, Diogo Pacheco de Amorim, herdou uma das cadeiras que o pai regeu, a Mecânica Racional, e coligiu as aulas do pai num livro que é realmente um modelo de organização e clareza matemáticas. Intitula-se “Lições de Mecânica Racional”. Não sei a quem cabe, se a ele se ao pai, a maior parte das virtudes da obra, pois já não fui aluno do pai. Admitindo que a responsabilidade é partilhada, exprimo aqui a minha admiração pela capacidade expositiva dos seus autores! Acrescentarei que, como aluno do liceu ou, como hoje dizemos, do ensino secundário, estudei aritmética racional por um livro da sua autoria que ainda hoje guardo, para eventual consulta, na minha biblioteca pessoal.

José Bayolo Pacheco de Amorim foi o primeiro cultor, em Portugal, do que hoje chamamos a teoria dos grafos e redes. A sua tese de doutoramento versava o célebre problema das quatro cores. Foi bolseiro em Espanha com Alfred Errera, outro pioneiro desta área, também injustamente esquecido ou, pelo menos, pouco lembrado!

As universidades portuguesas tinham, naqueles tempos, uma extrema rigidez de curriculum; não era possível oferecer aos alunos qualquer variação no elenco das disciplinas que constituem os cursos. Só muito mais tarde começou a haver opções. Um homem como José Bayolo Pacheco de Amorim nunca pôde oferecer uma disciplina sobre a sua especialidade, grafos e redes, aos estudantes.

Como investigador, nas suas dissertações e noutros trabalhos que publicou, ele fez uma análise pormenorizada do problema da dualidade entre cartas geográficas e grafos, recorrendo a conceitos delicados de Topologia.

Como cidadão, teve intervenção ativa na vida pública; era já então conhecida a sua enorme simpatia pela Causa Monárquica, o que por vezes terá levado alguns a considerá-lo um representante do que então se chamava a extrema-direita. Pessoalmente sempre senti o seu apoio profissional e nunca detetei qualquer discriminação, embora eu claramente não partilhasse a sua posição política. Sei que, à margem da sua atividade como catedrático de Matemática, foi um dos grandes dinamizadores do Instituto Politécnico de Tomar, ao qual começou a dedicar intermináveis horas de trabalho na idade em que muitos já só pensam em se aposentarem, e assim continuou já depois de jubilado da Universidade de Coimbra. A sua energia era impressionante, pois corria incansavelmente entre Tomar, Coimbra e a sua bela quinta no Minho… isto num tempo em que a rede - ou o grafo! - das autoestradas portuguesas era bem mais reduzida!

Sua esposa, cuja foto do tempo em que eram noivos ele mantinha na sala de visitas da sua moradia de Coimbra, sempre, em segredo, a admirei, pela sua beleza e juventude, que o seu estilo de vestir acentuava: sandálias pretas e soquetes brancos, saia rodada e blusa de mangas tufadas. Mais tarde, quando a conheci - obviamente, já o casal era adulto - profundamente apreciei, nas diversas vezes em que eles tiveram a amabilidade de me convidar, a dignidade da sua elegância gentil e a distinção do seu trato. Presto aqui, à sua memória, a minha mais sentida homenagem.