quinta-feira, 28 de agosto de 2008

VAIDADE MINHA!

VAIDOSO EU? DESTA VEZ, SIM!

João de Castro Nunes, um dos poetas contemporâneos que mais admiro e a quem me refiro neste blogue num cartaz da categoria Literatura com o seu nome no título, dedicou-me um soneto. Claro que é razão para me sentir muitíssimo orgulhoso. Vou transcrever o referido soneto:

“Amor explorado”

Ao Poeta Zé-Manel Polido

Li seus poemas que me impressionaram

pela superação que patenteiam

das circunstâncias várias que geraram

as mágoas que os seus versos alardeiam.

+

Impressionou-me a forma da expressão

bastante original, sem todavia

em termos musicais pôr em questão

o clássico sentido da harmonia.

+

Vê-se que tem poético talento

predominando sobre todo o resto

o seu desencantado sentimento.

+

Em quanto escreve existe um grão de sal,

um fio de humorismo manifesto

que virtuoso faz o próprio mal!

João de Castro Nunes

JOÃO DE CASTRO NUNES

JOÃO DE CASTRO NUNES, O HOMEM E O POETA

JOÃO DE CASTRO NUNES é um homem da cultura, que como tal se afirmou no ensino universitário, e é também um grande poeta da língua portuguesa.

A sua enorme sensibilidade rebrilha nos seus versos. Cultiva o soneto à boa maneira dos clássicos, essa forma de Poesia em que a liberdade está muito longe de ser total. E apesar disso, a originalidade está lá, em cada um deles, o estilo que criou leva-nos a reconhecer o autor logo que lemos a primeira quadra, e a mensagem que cada um nos transmite - porque há, sim, uma mensagem em cada um dos seus sonetos! - é sempre límpida, compreensível, fluida.

Não deve haver quem o iguale, muito menos o exceda, quando exalta o amor à Mulher da sua vida, a sua Esposa e Mãe dos seus oito filhos. E esse amor não foi uma paixão frustrada, muito menos um fogo que ardeu e se consumiu, ou que não teve tempo de se desgastar porque as circunstâncias lhe puseram fim rapidamente; há génios da Poesia que cantaram amores desse tipo e não deixam de merecer a nossa admiração e o nosso respeito. Mas o amor que ele imortaliza nos seus sonetos foi constante, sereno e viveu-o seis décadas desde a juventude; aliás continuou a vivê-lo e vive-o hoje para além da morte com a mesma ou ainda maior intensidade.

Para quem porventura ainda os não conheça, permito-me aqui transcrever dois dos seus sonetos (sem lhe pedir autorização, é certo, mas são apenas dois entre as centenas que ele compôs!). Fui buscá-los ao livro “Orfeu resignado” (edição de autor, publicada em Arganil em 2007). Como a maioria das suas obras são edições de autor e por conseguinte pouco distribuídas, sugiro uma visita ao site do Movimento Cidadãos por Góis onde João de Castro Nunes colabora regularmente.

O URL é: www.portaldomovimento.com/joao_de_castro_nunes.html.

Não quero deixar de assumir que é perante o sentir de homens como ele que tenho de acreditar no género humano. Aqui estão os dois sonetos:

++++

Pelo amor que me deste e que eu te dei

amor sem par, sem peso nem medida,

marcado com punção de ouro de lei,

foi como um sonho, amor, a nossa vida!

+

Foram diversos anos que passaram

mais rápidos acaso do que a luz,

seis décadas que nos transfiguraram

em cireneus levando uma só cruz..

+

O sonho que vivemos não findou:

com algum exagero ou fantasia

direi que só agora começou..

+

Há-de no céu continuar um dia

quando o Senhor que nos desapartou,

quiser que eu vá fazer-te companhia!

+++

Eu creio em Deus, na vida além da morte,

não tanto por argutas teorias,

mas por amor do modo que tu crias

compartilhando a tua fé tão forte.

+

Porém, se acaso assim não suceder

e vão ter sido em Deus acreditar

por com a morte a vida terminar,

valeu a pena mesmo assim viver.

+

É que seguramente, na verdade,

nada é melhor do que a felicidade,

seja onde for, com a pessoa amada.

+

Se após a morte não houver mais nada,

bastou-me ser feliz contigo aqui,

pois tive o céu na terra ao pé de ti!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

AOS MEUS ALUNOS: UM VALOR A MAIS, UM VALOR A MENOS

Ainda vos afixo aqui mais uma mensagem!

Um de vós, que designarei por X, pediu-me uma correcção da nota lançada pois gostaria (e tem todo o direito a isso) de repetir o exame para a melhorar embora ela já seja muito boa.

Esse pedido me levou a tecer algumas considerações que creio serem úteis para todos vós.

Aí fica pois a resposta que dei ao vosso colega:

+++

Olhe, amigo X, claro que a sua nota foi obtida em avaliação contínua e, tendo havido erro
no lançamento, há-de haver maneira de o corrigir. E, obviamente, estou disposto a
fazê-lo. Claro também que terei gosto em falar pessoalmente consigo. Porque mais
importante talvez que tudo o que eu lhe tenha ensinado de Matemática será o que lhe
poderei dizer nessa conversa sobre a sociedade competitiva em que o nosso país (e o
X não se esqueça que é europeu) se vai transformando.

Porque me faz pena que o X, sem dúvida um jovem inteligente e capaz, em vez de
olhar para o futuro, olhe para passado! Eu, no seu lugar, buscava novos desafios, cada
vez mais exigentes, cada vez mais globais, talvez tentar já um pouco de actividade
profissional relacionada com o seu curso ou até fazer um pouco de investigação; tudo para começar a construir um curriculum à altura da sua
geração que garantidamente não se vai basear no 10, no 15, no 18 ou 19 ou 20 que tiver
em qualquer das dúzias de cadeiras que frequentar na sua formação.

Sabe, X, a última batalha que os jovens portugueses travam com a única arma das
notas é o 12º ano: e é para entrar ou não em Medicina. E até essa batalha já está a parecer
ridícula a muita gente que conhece o Mundo! O Mundo, para além de Portugal, esse
Portugal "de onde se não vê a Europa" para citar, se não estou em erro, Vitorino
Magalhães Godinho. Até porque a escala de 0 a 20 que nós ainda usamos, é uma das
nossas vergonhas nacionais: em quase todo o mundo dito civilizado, traduzidas por números ou por
letras, as notas de aprovação no ensino superior são essencialmente três: muito bom,
bom ou suficiente.

Eu sei dos muitos recém licenciados que se encontram no desemprego. Não creio que seja por causa das notas, de mais um valor ou menos um valor, não creio que se tivessem mais um valor na média já teriam um lugar, ou que se tivessem mais dois valores na média já teriam sido promovidos na empresa ou instituição onde trabalham. Certamente é importante, imprescindível mesmo, que cada um seja competente na respectiva área profissional; mas isso não basta. É preciso ter um nível de ambição consigo próprio que o leve sempre a olhar mais para o futuro do que para o passado; ter uma visão global que dê o devido valor às diversas vertentes que fazem de um activo um agente de progresso e que incluem, a par de variados valores humanos, a capacidade de perspectivar o seu próprio passado, sim, mas só para atacar o futuro, tudo aspectos de que antigamente nunca se falava durante a vida escolar. Deixá-los hoje em silêncio é atitude que revela vestígios de um passado em que se saía da universidade a saber tudo o que havia para saber, com a consciência tranquila de quem não vai precisar de aprender mais nada no resto da sua vida.

Jovens amigos, pensem nisto!


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O QUE APRENDI COM OS CIGANOS

ORGULHAR-SE DE SOBREVIVER: SER IRMÃO DOS CIGANOS (*)



Aprendi o que é ser agredido por alguém a quem demos muito mais que tudo o que temos, alguém a quem demos o que somos, alguém a quem nos demos nós próprios. Mas aprender é valorizar-se, é tornar-se superior ao que se era. A experiência é a mestra da vida e quem a tem ganha a verdadeira sabedoria. Nunca me deprimiu ser agredido, nunca amuei nem sequer quando criança… E conheço tanta gente adulta que continua infantil sob este ponto de vista… Numa situação como tantas por que passei, que berreiro não fariam… Serenamente, rendo a minha homenagem aos irmãos ciganos que me ensinaram duas quadras, de autor desconhecido, retrato da vida deles e da minha. Cito de memória:


“Quanto mais tempo se passa
Mais queixas minh’alma tem,
Sempre a ser tão ofendida
Sem ofender a ninguém.”


E ainda:


“Quem aprendeu a viver
Como nós, vida tão dura,
Nem pode sorrir na glória
Nem chorar na desventura.”

_____

(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.
© Editora Luz da Vida, Lda.




(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

TO A CHILD OF DIVORCE: THE CENTER AND THE MARGIN

Trata-se de uma versão em língua inglesa do poema inédito FILHO DE DIVÓRCIO que afixei neste blogue. É que os meus filhos nasceram e cresceram em Nova Iorque! As duas versões foram escritas no decorrer de um encontro de poetas que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sob o lema "O Centro e a Margem"; havia um grande nome anglófono como convidado de honra e eu ofereci-lhe as duas versões. Não sei se ele se dignou ler a inglesa! Talvez até tentasse e não conseguisse. Porque o Inglês é mau? Porque não percebeu de que se trata? Um homem pode ser um génio e não compreender muitos problemas que há no Mundo; os alemães têm uma palavra que descreve tais homens, aliás sem conotações negativas: FACHIDIOTEN.


To a Child of Divorce: the Center and the Margin

Central is the dollar, the euro or the pound!

My son, my darling, how sad I must sound!

Beyond silver, gold,

and jewels that glow,

nothing is of value

for your Mom,

the Court,

even Grandma… I know!

That Dad hugs you,

they surely don’t allow.

And that I stay away

is written in the law!

My love? You never saw

how far it can go.

Such an absurd pain…

alone, on the margin,

forgotten, I remain.

Zé-Manel Polido(*), 2004-05-24


*) Zé-Manel Polido is my pen name. This poem was never published. It is not a translation of anyone of the poems in my book “Amor Explorado” (Editora Luz da Vida, Lda. Address: Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra - Portugal).

FILHO DE DIVÓRCIO: O CENTRO E A MARGEM

Este pequeno poema foi escrito no decorrer de um encontro de poetas que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sob o lema "O Centro e a Margem"; não me recordo se alguém o leu. É pouco provável, porque o tema era (e é) politicamente incorrectíssimo.


“Ao Filho de um Divórcio: O Centro e a Margem”

No centro, o dólar!

Que amargura, meu filho…

Além do vil metal,

nada mais valia

para a mãe,

para o tribunal

e até para a avó… eu sei!

O amor do pai,

não viram que existia.

Absurdo da dor

consagrado na lei!

Por isso, abandonado,

longe de ti, à margem,

foi assim que fiquei!”

Zé-Manel Polido(*), 2004-05-24


*) Assino como Zé-Manel Polido os livros “Amor Explorado” e “Amor, Solidão e Fé” (Editora Luz da Vida, Lda. Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra). Mas este poema é inédito.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A CHÁRIA ISLÂMICA OU O PARASITISMO OCIDENTAL?

CHÁRIA ISLÂMICA E PARASITISMO DA DIVORCIADA OCIDENTAL (*)

Quero pois associar o meu grito ao teu, num apelo à consciência colectiva contra uma última discriminação das sociedades ditas ocidentais, discriminação essa em que nem políticos, nem líderes religiosos, nem fabricantes ou fazedores da opinião pública parecem reparar. As vítimas são os homens, eles próprios no seu orgulho idiota pouco propensos a assumirem-se como tal. Mas assim como ninguém defendia as mulheres enquanto elas, porque se envergonhavam de assumir ser vítimas de abusos sexuais ou violências domésticas, não apareceram na ribalta, assim ninguém reparará em nós, homens, enquanto tivermos vergonha de gritar na rua a nossa dor, de chorar em público as nossas mágoas, de ameaçar nos media todos os que, e principalmente todas as que, contínua, cínica, farisaica e estupidamente nos ferem.

Quero contigo desmascarar o parasitismo da divorciada e o negócio repugnante que é transformar os filhos em mercadoria, sequestrá-los e pedir por eles resgates com o apoio de legislações tão paranóicas como eram as do tempo da escravatura, da inquisição, do apartheid! Todas eram sagradas no seu tempo. Todos lhes deviam obediência e respeito. Mas aos olhos pretensamente civilizados com que hoje as vemos, eram a encarnação demoníaca do obscurantismo. Exactamente assim aparecerá, aos olhos das gerações futuras, o enquadramento jurídico que hoje o Ocidente dá às leis da guarda de crianças, nos casos cada vez mais frequentes de divórcio dos pais!

Preocupam-se muito alguns tartufos deste nosso dito Primeiro Mundo com a situação das mulheres nos países islâmicos, onde a “chária” as reduz a papéis secundários de subalternidade. Zelotes! Esquecem-se que têm nos seus países esta situação paralela em que os homens, e não as mulheres, são as vítimas indefesas, escorraçadas, espezinhadas, exploradas! Acredito nesta prosaica verdade, que muita gente finge esquecer, que é pela nossa casa, e não pela casa dos outros, que devemos começar a arrumação e a limpeza!

Veja-se este modelo de justiça: rouba-se um automóvel ao seu legítimo dono; ao gatuno será dado o direito de o conservar em seu poder, ao dono recusa-se o direito de o reaver e impõe-se-lhe ainda a obrigação de continuar a pagar o seguro, o imposto de circulação e as despesas com a manutenção e revisões mecânicas; enfim o ladrão concorda em pagar a gasolina e aceita que o antigo dono o utilize uma vez de quinze em quinze dias.

Que diríamos nós se a legislação das sociedades em que vivemos enquadrasse estas situações e as resolvesse da forma paradoxal acima descrita? Absurdo? Esta é a situação vivida por uma imensa maioria de pais divorciados, a quem subtraem arbitrariamente os filhos, mas que nem por isso são dispensados da obrigação de os manter, por vezes em ambientes artificialmente montados com luxos supérfluos, retendo apenas o direito de os verem de quinze em quinze dias. Seria exactamente a mesma situação que a apresentada acima, mas na verdade é ainda pior, pois que custa muito mais perder um filho que um automóvel, mesmo um topo de gama...

______

(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

DIVÓRCIO NOS PAÍSES OCIDENTAIS

FUNDAMENTALISMO NO DIVÓRCIO À OCIDENTAL (*)

Interrogas-te se virá o dia em que, a pretexto de pensões alimentares em atraso, a mulher terá o direito de vender os órgãos do ex-marido que previamente mandou assassinar. E tudo te parece indicar como resposta: – Talvez!

Tu sobreviveste a esse cataclismo que é a última discriminação das sociedades ocidentais: a que se abate sobre os homens divorciados que são pais de filhos menores. E em seguida à condição de filho mal amado, uma tortura psicológica menos usual mas ainda mais avassaladora.

É certo que amaste a tua ex-mulher e era com dor que vias crescer, primeiro a antipatia da tua mãe por ela, depois – consequência natural! – a incompatibilidade entre as duas. Enfim ela pediu o divórcio porque não queria que a sogra, directamente ou por teu intermédio, influenciasse os vossos filhos. Queria ter o poder de os afastar de vós. Estranho, como tudo se manipula… mas manipula! Durante mais de uma década a seguir ao divórcio, serviu-te, fria, a vingança contra a tua mãe que vias em declínio e sofrimento pelo cruel afastamento dos netos, e que, hora a hora, acompanhaste. E um dia, antevendo a solidão, tornaste a casar. Assististe então, com horror e fascínio, a um fenómeno raro nas relações humanas: viste a tua mãe transferir para ti e para a tua actual mulher o rancor que tivera à primeira, e para esta, esquecendo o passado, o amor imenso que – ainda hoje o crês – sempre te dedicara. Ominosa permuta de amor por ódio e de ódio por amor!

“Quando se passa por uma tal experiência” – disseste – “só pela confiança num Deus que nos liberta de angústias julgadas insuperáveis é que nos salvamos de personificar o mais acabado e completo cínico, para quem nenhuma relação humana é genuína.”

Este livro são cartas nunca expedidas e páginas de um diário que afirmas ser o teu legado, o teu único legado: podia muito bem intitular-se Autobiografia de um Louco. Quem o ler alcançará o que tal título traduz! E contemplará alguns fios dessa inefável teia de sentimentos, centrada na personalidade enigmática da tua mãe, ao recordares momentos de amor e solidão que atravessaste sem nunca perderes a fé.

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(*) Estas são as palavras com que abre o livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

ZÉ-MANEL POLIDO, A VOZ DO PAI DIVORCIADO

ZÉ-MANEL POLIDO

E O SILÊNCIO SOBRE O PAI DIVORCIADO

Quem ousa desafiar The Establishment?

Como já afirmei noutro cartaz que afixei neste blogue, ser autor e editor é uma curiosa experiência que muito nos ensina sobre a sociedade em que vivemos, neste caso, a portuguesa ou, mais propriamente, a ocidental. Os dois livros que publiquei sob o pseudónimo de Zé-Manel Polido “Amor Explorado” e “Amor, Solidão e Fé” (Editora Luz da Vida, Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra, URL: www.luz-da-vida.com.pt) viram-se cobertos por um manto de silêncio só por tentarem trazer à luz do dia um drama politicamente incorrecto: a discriminação contra o pai divorciado. Para o leitor mais interessado, afixarei neste blogue alguns fragmentos do “Amor, Solidão e Fé”.

Entretanto o texto que segue foi extraído, com ligeiras adaptações, de um capítulo do meu trabalho final no curso de Pós-Graduação em Edição, Livros e Novos Suportes Digitais, na Universidade Católica de Lisboa, apresentado em Setembro de 2006. Continua válido! Deixo ao leitor a tarefa de tirar as suas próprias conclusões.

O silêncio que assassina:

Há, de facto, uma espécie de conspiração de silêncio sobre tudo o que não seja enquadrável no que, anos atrás, a geração contestatária chamava The Establishment; as gerações actuais deparam-se com idênticas barreiras no Establishment contemporâneo se pretenderem dizer o que não é politica, social ou religiosamente correcto.

Concordamos com o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, quando afirma, na entrevista publicada no número de Agosto de 2006 da revista Os meus livros: “A mim, o que me choca mais, mais do que dizer mal, é o silêncio que assassina”.

Cremos que o jornalismo em geral – talvez seja melhor dizer o “quarto poder” – é o principal responsável por essas barreiras de silêncio que se abatem sobre os recém entrados, como autores ou editores, no meio literário. Responsabilidade a começar nos críticos e comentadores e a acabar nos fazedores de opinião televisivos!

As promoções dos que não precisam delas:

Tem-nos efectivamente surpreendido o efeito “bola de neve” que é prevalecente a nível da promoção de edições literárias por todos os agentes envolvidos neste meio. Sem esquecermos as livrarias! Vejamos que, se uma determinada obra já vendeu 100 mil exemplares, em princípio não precisa de ocupar uma montra inteira; mas ocupa! Porque se está a obter um tão grande sucesso, é óbvio que a livraria a tem à venda e qualquer interessado em comprá-la pode entrar confiante e adquiri-la sem precisar de a ter visto na montra.

O mesmo se diga da postura das páginas literárias de qualquer revista ou suplemento da imprensa escrita: será preciso que todos analisem e reanalisem à exaustão o best-seller do momento, o seu autor, as obras que acabam de ser publicadas a reboque do mesmo tema e que esperam ter sucesso à sombra da primeira, as opiniões que outros críticos já emitiram a seu respeito?... Parecer-nos-ia que não, que não seria necessário prosseguir com super promoções de um produto cujo êxito já se confirmou; mas o que na realidade sucede é o contrário do que pareceria lógico. Os exemplos são por demais conhecidos e não vamos especificá-los por motivos óbvios!

Os temas de sucesso garantido:

Outro efeito que dificulta a vida aos referidos recém entrados é a prioridade dada a tudo o que tenha êxito comercial assegurado sem que minimamente se atenda à qualidade literária, para não dizer linguística e mesmo gramatical, ou à mensagem que a obra traz (ou não traz) consigo.

Se uma figura mediática, de preferência futebolista ou quejando, manequim, apresentador de programas televisivos ou vedetinha de telenovela ou de reality shows fizer publicar um livro sob o seu nome (no sistema de ghost writing, é claro, quer dizer, redigido total ou quase totalmente por um profissional da escrita), esse livro tem garantida uma enorme publicidade a todos os níveis e por todas as formas; e haverá, em consequência disso, ou talvez até sem necessidade disso, milhares de leitores interessados em o comprar, sejam homens que não realizaram o sonho de serem goleadores, mulheres que não realizaram o de se passearem em passerelles, jovens que não realizaram o de ser escolhidos num casting para algumas semanas depois entrarem na sua escolinha de peito inchado porque os outros meninos os viram na véspera na televisão.

Mencionemos ainda a prioridade dada às obras sobre temas em voga, as quais também têm êxito imediato: o centésimo romance dedicado, por exemplo, à violência do homem sobre a mulher vende tantos milhares de exemplares como vendeu o nonagésimo nono, o nonagésimo oitavo, o nonagésimo sétimo, etc. Porque este drama que, no nosso país, durante décadas se escondeu atrás do alcoolismo endémico dos rurais, agora publicita-se para evidenciar a emancipação da mulher urbana portuguesa! Dir-se-ia que ao mundo cinzento da aguardente cachaça e do vinho carrascão se igualou afinal o das flutes e do Johnnie Walker…

Mas mesmo que o tema nada tenha a ver com Portugal, desde que seja politicamente mediático… publique-se já! Os taliban impondo a burka no Afeganistão? Importantíssimo! Publique-se já! Os machistas da Arábia proibindo as mulheres de guiar automóvel? Verdadeiramente dramático! Publique-se já! A protagonista sofrendo a excisão do clitóris na África? É essencial que fique a saber dessa estúpida prática quem ainda não ouviu falar dela! Publique-se já! E publique-se já porque todas as páginas literárias vão dedicar parangonas a essa nova obra… embora nela nada mais se diga para além do que já foi dito e redito noventa e nove vezes…

Os poetas e o seu Gotha; alguém entende o que eles escrevem?

Enfim não esqueçamos as obras de poesia: ou o autor já entrou numa espécie de Gotha de poetas, um misterioso catálogo virtual de autores que são considerados poetas, ou não. Se entrou, vende o seu livro aos outros membros do Gotha; se não entrou, não vende a ninguém.

É certo que a poesia contemporânea são sequências de palavras cujo sentido provavelmente só quem está no tal Gotha ou vive ao seu serviço é que pode entender… São eles quem finge receber a mensagem, descodificando o que hoje chamam poemas, fiadas de algumas poucas palavras impressas no fundo de uma página; e parece que é importante ser no fundo, pois no cimo desvaloriza o conteúdo; ah! e o papel, sim, é de boa qualidade e a fonte tipográfica bem escolhida, pormenores cujo desrespeito levaria a que parte da mais-valia da obra se perdesse para sempre! Ao receberem tais mensagens, os eleitos vivem a mesma transcendência que sempre viveram os místicos, desde que a humanidade se conhece, quando afirmam percepcionar revelações do além através de visões ou vozes que só eles apreendem.

Em contrapartida ao que acabamos de dizer, qualquer livro de versos à moda antiga, ou seja, portador de uma mensagem e escrito em linguagem que todos entendam, com algum ritmo, métrica ou – pecado dos pecados! – rima… não é visto como poesia e resta-lhe candidatar as suas páginas a letras de canções ligeiras…

Ensaios e os partidos ou congregações apoiantes dos seus autores:

Quanto a ensaios e livros técnicos, assinalemos apenas que alguns problemas atrás mencionados também atingem o ensaio. Tornou-se claro para nós que a recensão de um ensaio por críticos literários das publicações de referência não tem nada a ver com o mérito respectivo! É que, também aqui, nem uma crítica negativa se pode esperar…

Se o autor do ensaio não for um consagrado – e pode sê-lo com inteira justiça pelo seu reconhecido talento e competência mas também pelo simples facto de ter um partido político ou uma congregação, religiosa ou agnóstica, atrás de si – ou se a editora não tiver o nome feito – e pode tê-lo pelos mesmos motivos que consagram um autor – não há sequer menção da obra; só o silêncio, o “silêncio assassino” de que Letria fala, a cobrirá…

O livro técnico e a fotocopilhagem:

E para não deixarmos de referir os livros técnicos destinados especialmente a apoiar os estudantes universitários portugueses, desses recordaremos um problema, este bem geral, que comercialmente afecta todas as editoras e todos os autores, consagrados ou não, estreantes ou veteranos: a fotocopilhagem, neologismo que alguém cunhou para designar o fenómeno que consiste em poupar uns cêntimos renunciando à capa dura e à boa encadernação e gramagem das páginas de um livro que poderia servir uns anos no estudo e na profissão, para usar em sua substituição umas folhas soltas e enrodilhadas que se atiram ao lixo no dia seguinte ao do exame.

A impunidade em que vivem as chamadas casas de fotocópias do nosso país é impressionante; pessoalmente recordo o que me aconteceu nos EUA quando entrei numa casa de fotocópias com uma revista científica onde tinha publicado um pequeno trabalho meu com apenas três páginas e eles se recusaram a fotocopiá-lo porque na respectiva ficha técnica se mencionava o copyright!

Conclusões:

Como disse no início, tire-as o leitor!

Lisboa, Setembro de 2006

© Zé-Manel Polido

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

QUE INTERVENÇÃO CÍVICA?

LITERATURA DE INTERVENÇÃO

Quem me conhece há pouco tempo pode gostar de saber até que ponto vai a minha intervenção cívica. Se sou ou fui deputado, autarca, dirigente ou simples activista de algum partido.

Propriamente, propriamente, não sou nem fui. Mas penso que todos nós, cidadãos, devemos manifestar a nossa opinião sobre questões e aspectos da vida em sociedade que nos sensibilizem de um modo mais intenso.

Por mim, vivi um drama que toca hoje muitos homens no chamado Mundo Ocidental: o drama do divorciado, pai de filhos menores, que se vê impossibilitado, pela ex-mulher ou pelos tribunais, de conviver com eles.

Todos ouvimos condenar – e muito bem – as mais variadas discriminações, seja pela cor da pele, pela religião, pela nacionalidade, pela etnia. Todos ouvimos condenar – e muito bem – as discriminações e violências de que a mulher tem sido vítima. Mas só agora se começa a falar desta última discriminação em que a vítima é o homem e a mulher a culpada. Todos os países da chamada civilização ocidental, tanto os do Hemisfério Norte como os da América Latina, estão a despertar para esta forma de violência que por ser essencialmente psicológica não é menos execrável que qualquer violência física.

Tem sido, pois, através da escrita e também como membro de associações que se preocupam com estas problemáticas, que dou o meu contributo à luta contra uma situação tão vergonhosa. Por isso me considero um cidadão que preza a sua intervenção na sociedade: e orgulho-me do meu pequeno contributo para ajudar a tornar o Mundo mais justo.

Respeito a opção – e o talento, sim! – dos profissionais da escrita que escrevem pelo prazer de escrever, pelo gosto de alinhar palavras, frases e intermináveis páginas, muitas vezes nos fascinando com a capacidade que têm de manejar, para não dizer manipular, a linguagem. Embora não defendam nenhuma tese nem documentem nenhuma situação da qual nos queiram tornar conscientes, muitos que tomam esta atitude são considerados – e talvez sejam efectivamente – grandes escritores.

Mas não é esse o caminho que escolhi. Eu prefiro escrever apenas quando estou convencido que tenho algo para dizer. Embora por vezes também não resista a fazer um pouco de humor! Acredito que quem sofre precisa, com mais razão ainda, que lhe dêem de vez em quando um pretexto para soltar umas gargalhadas saudáveis!

Para si, que veio visitar este meu blogue, aqui tem dois exemplos da minha escrita: um pouco de ironia num caso (foi escrito quando George Bush era o Presidente dos EUA) e muito sofrimento no outro. São dois poemas extraídos do meu livro Amor Explorado.

(Nota: Se gostar e quiser ajudar, compre na sua livraria ou encomende directamente à Editora Luz da Vida, Lda. Rua Mário Pais, n.º 16-0-A, 3000-268 Coimbra. Custa 10 euros, mas se indicar que viu neste blogue são apenas 9 euros. A editora pode mandar-lho à cobrança; mas se enviar cheque ou vale postal com a encomenda, as despesas de envio são por conta da editora.)

HUMOR NEGRO

To Mister President...

- Wanna learn Portuguese, Sir?


Limpar o Mundo

De terroristas,

De armas maciças

De destruição…

+

Projecto ingente,

Ninguém duvida.

Pela nossa vida,

Vamos em frente!

+

Dizem-me até,

E ninguém mente:

– Temos metralha

Inteligente.

+

Então, avante,

Acabar co’a raça

À mosca, à pulga

Mais à carraça!

+

Mosquitos, pulgas

Que tanto picam

Matá-los todos

É uma ilusão...

+

Mas mesmo assim

Há quem insista!

Este é o conselho

Que sempre dão:

+

– Vencer as moscas

Com o avião!

Contra os mosquitos

Usar canhão!

+

E quanto às pulgas,

A solução

É estoirar bombas

De fragmentação.

+

Já para carraças,

As ordens são:

– Se for preciso,

Matem o cão!

+

– E ovos e larvas

De todas elas?...

Pensaram nisso?

– Ficam no chão…

+++

RETRATO

Aos meus filhos:

Tenho na minha mesa de trabalho

Aquele retrato em que vos vejo aos dois...

Os dois junto a mim!

Momento fugidio…

Pensava então

Que o tempo de sofrer pela vossa ausência

Tinha chegado ao fim...

+

Ingenuidade!

Não vos voltei a ver...

Nossa separação recomeçou.

Culpa de quem? De quem só é feliz

Quando a vida dos outros destroçou...

+

E é neste limbo que paira o meu amor,

Pelos filhos que o ódio me arrancou.

Santa aliança, a dos que recearam

Que vós, filhos, me vísseis como eu sou...

domingo, 10 de agosto de 2008

Livros por Zé-Manel Polido e a Publicidade

DOIS LIVROS DE ZÉ-MANEL POLIDO:

AMOR EXPLORADO

e

AMOR, SOLIDÃO E FÉ

(publicados pela Editora Luz da Vida, R. Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra) (www.luz-da-vida.com.pt; fax:239704031, voz:239705331)

Ser autor e editor é uma curiosa experiência que muito nos ensina sobre a sociedade em que vivemos, neste caso, a portuguesa. Foi essa experiência, como autor dos livros acima indicados e sócio da editora que os publicou, que me levou a escrever o texto que a seguir se apresenta.

Foi redigido em Maio de 2006 quando tirei um curso de Pós-Graduação em Edição, Livros e Novos Suportes Digitais, na Universidade Católica de Lisboa. Infelizmente continua actual.

Trata-se aqui de publicidade na literatura, mas o papel alienante que refiro é também o da publicidade em geral, sobretudo quando dirigida a pessoas que deixam adormecer o seu raciocínio crítico.

SEGUE-SE O TEXTO:

PUBLICIDADE: INFORMAÇÃO OU ALIENAÇÃO?

Parece que, já na Antiguidade, os imperadores davam aos seus súbditos circo quando não lhes podiam ou não queriam dar pão. Assim, as lutas dos gladiadores romanos eram um espectáculo para imbecilizar as massas, uma forma de as alienar relativamente a problemas reais que as afligissem e que os governantes deviam, mas não sabiam, ou não se dispunham a, no mínimo, tentar resolver.

Também no nosso país, sob o salazarismo, era fado, futebol e Fátima o que se dava ao povo com esse mesmo fim. Hoje, Fátima e fado só toma quem quer e na dose que quer, mas as quotas do mercado da alienação, que estes dois produtos detinham, foram transferidas para o futebol, pelo que a alienação continua. Mas não só! Surgiram, com nichos mais pequenos, outros produtos, cada um com o seu público-alvo, vectores preciosos para dar sentido à vida de quem nunca venceu a própria frustração, nunca reconheceu o próprio valor e sobretudo nunca aprendeu – talvez porque nunca lhe ensinaram – a usar o seu espírito crítico. As marcas – são um desses vectores! Os ídolos – são certamente um outro, entendendo-se que aos que têm os estádios de futebol por habitat devemos acrescentar os que o têm nos palcos da televisão e ainda aqueles, ou melhor, aquelas que o têm nas passerelles da moda: e quando as últimas emparelham com os primeiros… é o supra-sumo do fascínio, do glamour, da perfeição!

Tenho procurado entre as opiniões de peritos em psicologia e em sociologia que papel é que desempenha o marketing e que incapacidade (ou ausência de papel) se deve atribuir à escola no criar desta situação. Que talvez esteja perto do fim! Não duvido que há uma publicidade bem-vinda, útil, que serve a sociedade: se não se conhece a existência de um produto ou serviço, não se utilizam as vantagens que eles podem oferecer. Por isso, mesmo numa economia de subsistência, esta publicidade terá o seu lugar.

Mas que utilidade terá, para o público a quem se dirige, a outra publicidade? A outra, que, por vezes, parece ser a única que existe nas sociedades da afluência? A outra que custa milhões, que, se não existisse, por certo permitiria baixar substancialmente o preço dos produtos e serviços que promove! A outra que só se explica pela existência de lucros tão fabulosos que é preciso diminui-los para não enlouquecer afogado neles!

Não há nestes comentários desrespeito pelo génio e a competência dos especialistas em marketing. É hoje uma ciência desenvolvida, com as suas bases teóricas, a sua praxis e os seus métodos de acção bem sistematizados e capazes de obter os resultados que se propõem atingir. Uma vasta publicidade e uma ampla distribuição de um produto, juntas e bem coordenadas, fazem milagres de vendas! Porque enquanto se repete à exaustão que as empresas de sucesso são as que vendem aquilo que o consumidor quer comprar, o que na realidade acontece é que as empresas de sucesso são as que levam o consumidor a comprar aquilo que elas querem vender. E a publicidade é uma arte de comandar sem dar ordens! De efeitos paradoxais! Como é que cidadãos tão renitentes, ao que se diz, a cumprir algumas obrigações cívicas ou até legais, seguem docilmente o dedo em riste de um qualquer anúncio em gigantescos outdoors ou nas pantalhas televisivas?…

Foi publicado a 22 de Abril (de 2006), no jornal espanhol El País, um editorial da colunista Esther Tusquets com o qual quase inteiramente concordo. Trata a autora de relacionar a moda com a cultura, ou talvez melhor dizendo, a cultura com a moda! Na figura que acompanha o texto, a ilustradora Silja Götz dá uma imagem síntese do pensamento que a autora do artigo quer transmitir. De facto, nessa figura, é representada uma mulher de aspecto mundano e sofisticado com uma rosa estampada no vestido verde liso: numa das mãos segura um livro aberto que ela lê, em cuja capa verde lisa se desenha a mesma rosa; da outra mão deixa cair outro livro, cuja capa não é verde nem tem rosa!

A cultura passou assim a ser controlada por ventos de estação. E homens e mulheres aceitam e humilham-se! As marcas decretam as “gravatas cinza”? Magnífico, sempre foi esta a cor que eu preferi… As saias largas? São as que sempre comprei… As meias pretas? Toda a vida as usei… As calças com dobra? Curioso, também as acho mais chiques… Mas a quem se pretende deitar pó nos olhos? Quem são os ingénuos que vão dar e ouvir as mesmas respostas quando, daqui a alguns meses, estas mesmas marcas decretarem o uso de gravatas roxas, de saias justíssimas, de meias castanhas, de calças sem dobras?

Admitamos que somos todos fúteis quando se trata de roupa: não há nada de essencial na sua cor ou corte e o uso desgasta-a; com maior ou menor frequência, temos de a substituir: que motivo nos levaria a nunca mudar de aspecto? O que deprime é a incidência dos mesmos critérios na escolha de tantos outros produtos, desde os utilitários aos culturais. E em especial, porque é o tema que aqui nos ocupa, na escolha dos livros!

Todos sabemos, mas por vezes esquecemos, que a literatura não é só uma arte. Se de um quadro, escultura ou peça musical se espera apenas qualidade estética pois é através dela que os admiramos, de uma obra literária espera-se o mesmo mais um complemento ou uma alternativa: é que seja um documentário ou que defenda uma tese; a uma obra literária deste tipo perdoa-se alguma falta de qualidade linguística. Então, quem deve escrever? Quem tiver o génio da língua, sem dúvida alguma! Ou simplesmente – e nisto é que o livro se distingue das outras obras de arte! – quem tiver alguma coisa para dizer. Recordando exemplos de obras que li há pouco tempo, muito admirei a mestria com que John Banville domina a língua inglesa no romance The Sea, premiado aliás com o Man Booker Prize; e não é um romance-tese nem é um testemunho. Em contrapartida, Azouz Begag, no seu autobiográfico Le Marteau Pique-Coeur, não tem essa mestria do domínio da língua (no caso, a francesa) mas mostra com admirável detalhe a situação de milhões de migrantes na Europa do passado recente; e ao trazer-nos esse documentário, impõe-se como escritor de missão. São dois livros de grande valia, que, apesar disso, não são best-sellers! E porquê? Falta de marketing? Lacunas na distribuição? E ainda, a pergunta que naturalmente faremos, se há espaço para os oferecer ao público. Porque o espaço está ocupado pela oferta de obras mediáticas, cujo único mérito é serem mediáticas, algumas que foram escritas usando a linguagem quotidiana das pessoas mais simples para não dizer dos quase analfabetos – mas isso nem seria dramático – outras, embora num estilo mais trabalhado, mas que nada ou muito pouco dizem. Obras que são compradas mas nem sempre lidas até ao fim, que jamais serão relidas, pensadas, meditadas… às quais não retornaremos para buscar a frase que fez memória, que cristalizou uma época, que por isso mesmo se perpetuou no tempo. Que elas simplesmente não contêm. Porque são apenas fogo-fátuo ou o endeusamento de um ídolo, rei ou rainha do nada, que nelas figura como co-autor, autor putativo, personagem central, ou isto tudo ao mesmo tempo!

Diz, pois, a jornalista espanhola, depois de apresentar números sobre o aumento das tiragens dos best-sellers e a redução das tiragens médias de todos os outros, que o que está a minar o apreço pela qualidade dos livros no panorama actual da literatura, não é, como alguns proclamam, a televisão, a Internet ou mesmo o cinema e a capacidade que estes meios têm de, tal como a literatura, também nos contarem histórias. O que impede a divulgação e prejudica as vendas de livros que tenham algo a dizer ou sejam escritos com arte… são, nas palavras dela, esse horror dos livros “mediáticos”, os “best-sellers” de pouca qualidade, apoiados por prémios literários (alguns, direi eu, dados a quem os merece, mas outros de justiça questionável) e promoções milionárias. Livros – continua ela – de qualidade duvidosa que é preciso ler para não ficar fora do momento! Que são, em definitivo, – continuo a citar – o predomínio absoluto da moda sobre a cultura.

Este fenómeno dos livros mediáticos centrado nos chamados temas da moda é um exemplo do que pode acontecer às vendas quando os concorrentes se tornam aliados; e não é por qualquer cartel que constituam, mas apenas porque, quanto mais publicam sobre um determinado tema, mais o popularizam, mais fazem dele “o” tema e mais contribuem para o manter alvo da voracidade do público. E os outros, os que tratem de assuntos que os “powers that be” ou manda-chuvas da praça considerarem politicamente incorrectos, ficam no esquecimento, ignorados pela crítica não vá um elogio ou até um ataque chamar a atenção para eles, com os adversários à espera que eles morram, confiantes na lei do ciclo de vida, esse mito que o marketing e a indústria da obsolescência programada criaram e cultivam: quem aconselharia hoje, como Ralph Waldo Emerson, “Não leias nenhum livro que não tenha pelo menos um ano de idade”?

Parece-me pois que, em publicidade, há duas áreas onde a sociedade civil – que afinal é cada um de nós – tem de actuar: no receptor, que precisa de ser educado, que tem de desenvolver o seu espírito crítico, para não ser um pobre títere manipulável e manipulado, sem mesmo se aperceber que o é, que tem de exigir uma publicidade esclarecedora e não embrutecedora; e no emissor, que consequentemente não deve agir num enquadramento que parece ser o de um duelo (encenado!) entre o Chico Esperto e o Zé Pacóvio… num emissor que terá de assumir uma postura de quem informa com objectividade, sem que para isso os publicitários por ele recrutados precisem de renunciar à originalidade, à variedade, à apelatividade, a uma adequada dose de bom humor.

Estou persuadido que esta revolução já está em marcha. As tradicionalmente chamadas classes dominantes são sempre as primeiras a perceber como devem educar os seus filhos para que eles permaneçam na vanguarda do seu tempo. Segundo um artigo de Ginanne Brownell e Quindlen Krovatin publicado na revista Newsweek da semana 15-22 de Maio de 2006, Andrew Bollington, o director de planeamento estratégico do programa International Baccalaureate, salienta que, nas escolas desta multinacional do ensino secundário de elite nascida para servir os filhos dos diplomatas em Washington mas hoje presente em 122 países, “students are taught how to think critically…” Não serão só eles! A avalanche de dados e mensagens que nos inunda a todos está a levar os cidadãos, desde os mais graduados academicamente aos que se doutoraram na escola da vida, a filtrar e criticar a informação que recebem. Embora ainda pouco perceptível, a evolução é real e esta capacidade que estamos a adquirir vai transformar a sociedade e, com ela, a publicidade. Talvez primeiro no Ocidente, mas paulatinamente a mudança globalizar-se-á.

Mudança para melhor, assim nós, os optimistas entre os quais me incluo, o esperamos!

Lisboa, 2006-05-22

© Zé-Manel Polido