domingo, 16 de novembro de 2008

A BÍBLIA E DARWIN



A CAROCHINHA, A SUA HISTÓRIA, A BÍBLIA E DARWIN (*)

Parece que ainda há pessoas, e até nas sociedades ditas desenvolvidas, que levam à letra as palavras do livro do Génesis, o primeiro da Bíblia.

Deus terá feito o Mundo em seis dias: segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado... uma semana portanto. Primeiro terá separado a luz das trevas (o que até parece de acordo com a teoria do Big Bang, pois antes dele só haveria trevas e nada e depois dele é que se fez luz), depois separou as águas das terras (se isto significa haver estados diferenciados da matéria, precursores de um estado sólido e um estado líquido, mantém-se uma aparência de acordo), em seguida fez os astros (as estrelas, o Sol, a Terra, a Lua). Até aqui, uns três ou quatro dias... e o que significará a palavra dia?

Mas difícil mesmo de acreditar é o calendário das actividades seguintes! Julgo que terá sido qualquer coisa como: Ele teria feito os peixes na quinta-feira de manhã, as aves na quinta-feira à tarde, a bicharada que não sabe nadar nem voar, na sexta de manhã, o homem nesse mesmo dia à tarde, depois reparou que não tinha feito a mulher e foi fazê-la a correr provavelmente já no Sábado, antes do almoço, para poder dormir a sesta com a consciência tranquila de quem completou o seu trabalho... e no dia seguinte, domingo, repousou todo o dia. Não terei sido muito preciso para os exegetas do Génesis, mas, mais quarto de hora menos quarto de hora, mais manhã menos manhã, mais tarde menos tarde, tudo se teria passado assim.

Francamente, não acredito de modo algum nestes pormenores. E compreendo que um Darwin que vivia numa sociedade puritana (e hipócrita, como são aliás quase todas as sociedades puritanas) tivesse querido combater essa visão dominante no seu tempo com a teoria que apresentou. Embora dissimulado com grande inteligência, o seu objectivo deve ter sido essencialmente político, ou político-social; terá sido um esforço mais destinado a abalar a autoridade secular de um poderoso clero, do que a explicar cientificamente fosse o que fosse.

Diz-se que, na opinião dele, as espécies não teriam surgido assim todas numa hipotética primeira semana da história do Mundo. Terá havido uma longa e lenta evolução em que novas espécies apareciam e outras se extinguiam, tudo ou quase tudo passível de ser explicado pela sobrevivência dos mais aptos. Ou seja, quando surgiam indivíduos com características distintas das dos seus progenitores, características essas que os tornavam mais aptos a sobreviver, então eles sobreviviam, transmitiam-nas aos seus descendentes, e aqueles a quem essas características não eram transmitidas ficavam com menos recursos para sobreviver e acabavam por se extinguir. Ainda com mais razão se extinguiriam aqueles indivíduos que surgissem com características diferentes das dos progenitores mas tais que os tornassem mais frágeis, menos aptos a enfrentar o ambiente. Dá pois a ideia, esta bela construção teórica, que houve uma evolução contínua (ou quase contínua, talvez mesmo, admitamo-lo, com alguns saltos discretos) em que os seres aparecidos posteriormente tinham mais capacidades, mais competências -- como se diz agora -- para a luta pela vida.

Será assim? Não parece! Como se teriam sentido os nossos antepassados ao verem as aves, que já existiam antes deles e já voavam porque tinham asas, perante a triste realidade de não terem asas? A evolução em vez de os tornar mais aptos, tornou-os menos aptos. Porque, não duvidemos, para fugir aos representantes de outras espécies fisicamente mais fortes e menos simpáticas -- eu direi os crocodilos, os mamutes, as serpentes -- que já povoavam a Terra, umas asas tinham dado muito jeito. E eles, se tivessem conhecimento do darwinismo, perguntar-se-iam: Como é que as perdemos? A evolução devia ter-nos tornado, já que a nossa espécie apareceu mais tarde, mais aptos, ou, na pior das hipóteses, devia manter-nos tão aptos como aqueles que antes de nós já tinham o direito às asas.

E quem diz asas, diz guelras. Então não se terão sentido revoltados os homens primitivos, porque a evolução, em vez de lhes dar guelras ainda mais perfeitas que as que tinha dado aos peixes surgidos antes deles, privou-os delas? Assim, em vez de mais aptos a sobreviver quando caíssem à água ou quando a água, numa inundação, maremoto ou chuva diluviana lhes caísse em cima, ficaram menos aptos, ou melhor, totalmente inaptos... e ainda o estamos, uns tantos milénios depois.

Talvez, em breve, a introdução de um gene de águia ou abutre e outro de bacalhau ou pescada no óvulo dos nossos netos lhes permita nascer com asas e guelras... mas isso, que digo e prevejo sem a menor ponta de ironia, não é fruto da evolução natural mas da ciência e da tecnologia. Não é uma confirmação, mas sim o desmoronar completo da teoria de Darwin porque provará que afinal podíamos ter mantido as asas e as guelras já usadas em espécies mais antigas -- quanto às asas até os pterossauros as tiveram e alguns não seriam muito mais leves que os humanos -- mas afinal a evolução não se dignou mantê-las! Teremos de concordar que estamos em presença de um claro desmentido do facto, mil vezes repetido pelos darwinistas, de que com a evolução sempre se avançou, tornando cada espécie mais apta que as anteriores. Aqui falhou redondamente. E este caso específico é apenas um entre milhares de outros casos análogos.

Há uma outra situação que põe claramente a nu a ingenuidade -- ou a arrogância! -- dos que consideram a espécie humana mais apta, mais capaz, mais adaptada que outras espécies a partir das quais ela terá evoluído. Refiro-me à proverbial (e real!) incapacidade de uma criança de sobreviver por si só. Então quando as crias de tantas espécies, mal saem do ovo já estão aptas a fazer pela vida e de facto sobrevivem sem qualquer apoio dos seus progenitores, nós, humanos, que teoricamente devíamos ser mais avançados, mais capazes, mais competentes, nós que como espécie seremos das mais recentes e portanto produto de uma mais longa evolução, de um mais demorado aperfeiçoamento... não conseguimos minimamente sobreviver, logo após nascermos, sem apoios?

Dos recém-nascidos -- não serão muitos mas infelizmente são alguns -- que certas mães desesperadas deitam no lixo, porventura já algum foi visto a roer um osso, a trincar uma espinha, enfim a tentar ingerir restos de comida que pudesse encontrar no contentor onde o abandonaram para se proteger de uma carência que certamente o matará? Nenhum! E no entanto, milhares de crias de peixes, por exemplo, sabem muito bem fazê-lo! Conclusão: não nos tornámos mais aptos que essas espécies que já existiam antes de nós. Tornámo-nos menos aptos e, por isso, teoricamente, segundo Darwin, não devíamos ter sobrevivido como espécie. Em suma, com Darwin ou sem ele, vamos assumir com humildade -- uma humildade que não é bíblica nem nada tem de mística ou metafísica! -- a seguinte e indiscutível verdade: neste ponto, somos menos aptos que todos os peixinhos e muitas outras espécies não aquáticas que nos precederam na cadeia da evolução...

Lembro-me de um dia ter lido, ocasionalmente, numa revista de divulgação científica, na sala de espera do meu dentista (razão pela qual não posso citar mais precisamente a fonte) o que o autor chamava um argumento decisivo a favor do darwinismo. Era, entre outras, a questão do olho. Ele dizia que devíamos reparar na razão pela qual o olho (ou mais rigorosamente, a capacidade da visão) se desenvolveu. De facto, argumentava ele, uma espécie sem visão rapidamente se tornava presa de outra espécie com visão, o que levaria a primeira a ser aniquilada e a segunda a prosperar; pois era claro, para o referido autor, que a espécie cega não podia fugir eficazmente da espécie com vista quando esta a atacasse.

Fiquei a pensar nas espécies vegetais; e nas espécies animais herbívoras... As plantas parece-me que não têm olhos; e mesmo que os tivessem, não têm pernas para fugir. Como é que ainda se não extinguiram todas?

Não escamoteemos factos verificados experimentalmente que parecem confirmar o grande Darwin: há vírus ou bactérias que, depois de combatidos, digamos durante uma década, com medicamentos antivíricos ou antibióticos que a princípio os destroem, evoluem e tornam-se resistentes. Quer dizer, as gerações seguintes ficam invulneráveis àqueles medicamentos que aniquilaram os seus antepassados. Ora, se pensarmos um pouco, isto não confirma mas sim desmente a teoria da evolução. Porquê? Porque -- admitamos que é verdade -- um vírus ou bactéria consegue rapidamente evoluir e tornar-se mais apto a sobreviver àquilo que o envenena e mata. Mas então essa capacidade perdeu-se (em vez de se adquirir) algures na cadeia evolutiva. Como é que um vírus faz isto no espaço de uma década e nós, humanos, produto de uma evolução que a partir desses micro-organismos nos devia ter tornado muito mais aptos e versáteis, continuamos a morrer se bebermos cicuta, exactamente como morreu o Sócrates, vai para 24 séculos? Essa capacidade de produzirmos descendência mais competente do que nós a resistir àquilo que nos envenena e mata, essa capacidade que os vírus e bactérias parecem ter, nós não a temos, contra o que seria de esperar dos postulados do darwinismo. E de desejar, postulo eu!

É verdade que têm aparecido alguns seguidores de Darwin que já não acreditam tanto nele como anteriormente se acreditava. Pelo menos tentam dar umas pinceladas de alguma cor nova para retocar a sua velha história. Estou a lembrar-me de Dawkin e da sua famosa e rendosa encenação chamada o gene egoísta! Mas que grande ideia nova que ele trouxe à sociedade! Como os genes se transmitem de pais para filhos, ele coloriu esta história dizendo que eles são eternos e usam os nossos corpos como uma casa de habitação temporária: quando a casa se degrada e se desmorona eles já estão a viver numa casa mais nova. Por isso são egoístas: servem-se da casa para passar umas décadas, mas estão apenas interessados na sua própria sobrevivência. A acreditar em Dawkin, eles são, não diremos eternos, mas talvez perenes.

Será esta ideia assim tão luminosa? Como, segundo os físicos, os núcleos dos átomos ora ganham ora perdem alguns electrões que os gravitam, vamos passar a chamar-lhes núcleos egoístas: sobrevivem à custa da nuvem dos electrões mas estes passam e eles é que ficam! Ou talvez vice-versa: os electrões é que são egoístas: servem-se dos núcleos para gravitar à volta mas, se o núcleo se desintegrar, eles rapidamente encontram outro núcleo! Enfim, os próprios átomos também serão egoístas pois integram moléculas mas sobrevivem à destruição destas; apenas se servem delas enquanto lhes apetece, depois arranjam outras onde se instalarem.

Quando penso nas considerações que acabo aqui de tecer, sou incapaz de decidir quem serão os mais ingénuos: Os que levam à letra o texto do Génesis? Ou os que levam à letra Darwin e os seus continuadores?

Já não falo dos milénios desde que se escreveu a Bíblia, mas do século e meio desde que Darwin lançou o seu manifesto. Século e meio durante o qual a Santíssima Inquisição já se tinha tornado inofensiva de modo que ninguém precisa de temer acabar na fogueira por apresentar ideias que não se inspirem no Génesis. Século e meio ao fim do qual nenhuma Darwiníssima Inquisição -- das que continuam a investir na intoxicação da opinião pública em geral e da juventude escolar em particular -- pode reivindicar o direito de queimar na fogueira os hereges como eu. Sendo estas Inquisições hoje inofensivas, naturalmente me questiono: -- É só por não haver coragem, ou porque a ninguém ocorre uma alternativa melhor, que ainda não se avançou com uma teoria mais credível, enfim, sem eufemismos, com uma teoria digna da nossa época, que explique a biodiversidade com menos fantasias ou fantasias menos delirantes?

Quando criança ouvi contar (e cantar!) a história da carochinha: bonita e arranjadinha, ela procurava um noivo para casar. Ao longo da vida, percebi que história da carochinha é expressão sinónima de descrição fantasiosa ou pelo menos fantasiada. E é desta metáfora que me socorro na presença de discussões entre criacionistas e evolucionistas seguidores de Darwin.

Tenho no entanto de reconhecer que os media estão agora a começar a anunciar, com grandes trombones e trompetas, que alguns génios da Biologia -- jovem prodígio, foi como recentemente o respeitado jornal on-line ‘’Ciência Hoje’’ chamou a Kevin Foster que será um deles --já descobriram finalmente que não é só a lei dos mais aptos que condiciona a evolução das espécies! Já não era sem tempo... mas, como diz o ignorado e ignorante povo iletrado português, antes tarde do que nunca! Creio que a frase é de Saramago e eu vou apropriar-me dela: Sou um pessimista cheio de esperança! Talvez isto seja o começo do caminho para enterrar de vez a teoria dos mais aptos.

© J. M. S. Simões Pereira, 15 Novembro 2008
(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve "Convicções e Cepticismos"

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO? ARTES DA EDUCAÇÃO?

ARTES (E NÃO CIÊNCIAS) DA EDUCAÇÃO (*)

Não sei se é a pressão dos linguistas que querem manter as línguas imutáveis e por tal motivo não aceitam que se inventem palavras novas para factos novos. Mas se os factos são novos, tem de haver para eles palavras novas. Este é um aspecto que, na minha opinião, tem de ser revisto. Ainda há outro em que os linguistas deviam intervir mas também aí ninguém vê neles qualquer reacção: refiro-me à utilização inadequada de palavras que, ou não exprimem o que se quer significar ou exprimem um facto distinto daquele a que se referem.

Exemplos não faltam. No campo da Informática, área muito afim daquela em que trabalho, os profissionais de programação de computadores e os teóricos da chamada Matemática Computacional usam a palavra instância em vez de exemplo ou caso particular. Transliteram o vocábulo inglês instance que, como todos nós sabemos, mesmo os não linguistas, equivale a exemplo (todos nós, americanos e portugueses, dizemos a cada passo "for instance" e "por exemplo", respectivamente), mas não equivale ao português instância: em português, o que há é tribunais de várias instâncias e também há quem faça pedidos instantemente.

Uma outra situação ridícula é o mais que discutido casamento de homosexuais, homens ou mulheres: tenho a convicção que a maioria das pessoas que se opõem à oficialização ou legalização destes contratos o fazem, não por oposição ao contrato em si, mas sim pelo uso de uma palavra que não foi criada para o expressar. Repare-se que, no imobiliário, um contrato de compra e venda não é o mesmo que um contrato de permuta: há uma diferença, relativa aos contratantes. No primeiro, na compra e venda, há alguém que tem e quer deixar de ter e outro que não tem e quer passar a ter; no segundo, ambos têm e querem continuar a ter. Justificadamente, os contratos têm nomes distintos; traduzem situações com algumas semelhanças mas que não são idênticas. Nesta linha de pensamento, porque é que não há-de haver nomes distintos para o casamento entre homem e mulher e o que persistem em chamar casamento entre dois homens ou duas mulheres? Impõe-se a intervenção de linguistas que criem uma palavra nova. Se cada coisa tivesse o seu nome, só se dignificariam ambas e não se estabelecia uma inútil confusão que prejudica sempre quem copia e irrita quem é copiado.

Estas considerações feitas um pouco ao lado dos temas que me propus tratar servem para melhor esclarecer o meu ponto de vista sobre uma polémica que tem também incomodado muita gente.

É o caso das Ciências da Educação. Porquê este nome, obviamente a despropósito? Não há Ciências da Educação! O que há, e seria mais correcto e honesto chamar-lhes assim, é Artes da Educação. O que aliás em nada as desprestigiaria. Até há pouco mais de um século, a Medicina era uma Arte; depois começou a ser uma mistura de Arte e Ciência; agora é muito mais Ciência que Arte. E porque é que podemos fazer esta afirmação? Porque agora sabemos que, se tomarmos a vacina anti-tetânica, é quase absolutamente certo que não vamos morrer com o tétano; e se tomarmos a da rubéola, também ficamos seguros - quase absolutamente e insisto no quase porque em Medicina o absoluto não existe - que não adoeceremos com rubéola.

Ora vejamos o contraste: Que vacina podem os educadores dar a uma criança que garantidamente a imunize contra tornar-se um criminoso ou mesmo apenas um miúdo violento? Ou um deprimido? Ou que a modifique, produzindo um jovem que adore ir à escola a partir de um adolescente que detesta fazê-lo?

Qual é pois a razão para falar de Ciência a propósito da Educação? Respondem-me que é porque, no seu âmbito, se fazem uns inquéritos, se obtêm umas estatísticas, se esquematizam uns resultados utilizando alguns cálculos de matemáticas elementares como sejam percentagens ou proporções. Bem, os pintores, em particular os figurativos, também recorrem um pouco à geometria quando querem respeitar as leis da perspectiva. Deveremos por isso mudar o nome desta forma de arte para Ciências Pictóricas? Quem frequentar uma faculdade ou escola superior de Belas Artes deverá passar a dizer que está a tirar uma licenciatura em Ciências da Pintura?

A excepção serão as Ciências Musicais, porque compor, harmonizar, orquestrar e mesmo afinar instrumentos musicais são actividades enormemente matematizadas. Mesmo assim, o espaço reservado à criação pura, seja do compositor ou do intérprete, é enorme. Também a Arquitectura tem Arte e tem Ciência, e Ciência tem até, embora em menor escala, a Escultura: é óbvio que ao esculpir uma estátua, há que considerar volumes, forças, equilíbrios... mesmo assim, é essencialmente uma Arte, não uma Ciência.

Por isso não se generalizou nem creio se generalizará no futuro próximo, qualquer designação do tipo Ciências Escultóricas nem mesmo Ciências Arquitectónicas.

Resta-nos o ridículo da designação Ciências da Educação.

Assumamos, pois, que a Educação é uma Arte. E que exige talento, em grande parte inato. E que quem brilha na criação dessa forma de arte merece o nosso respeito e admiração; mais até, a sociedade deve ser grata aos que a cultivam porque o seu papel na formação das gerações futuras é fundamental.

Só não se intitulem cientistas. São artistas, sim, e orgulhem-se de o ser, mas não reivindiquem títulos que não se quadram de modo algum aos aspectos centrais da actividade que praticam!

Que gostem de fazer isto ou aquilo, é legítimo; se lhes é apelativo por razões subjectivas, pratiquem-no! Mas não o queiram impor como um protocolo tecnológico ou uma lei científica! Porque disso, nada tem. O que para uns não terá nada de belo para outros é o supra-sumo da estética, às vezes simplesmente porque se generalizou, porque se tornou de uso ou prática numa dada época: como exemplos actuais darei, na Poesia, não haver rimas nem métricas; e na Arte do Vestuário, vulgarmente chamada Moda, as calças e blusões de ganga rasgados, tão em voga à data em que escrevo! A Arte não deve ser imposta. E cada vez é maior a tendência para não o ser. O pensador francês contemporâneo Gilles Lipovetsky fala abertamente nos seus estudos da morte da chamada moda imperativa; hoje, diz ele, a moda é plural. O tempo em que os grandes costureiros -- hoje dir-se-ia, estilistas -- diziam às mulheres: minhas senhoras, a baínha das saias este ano é a x centímetros do chão ou este inverno as botas usam-se pretas ou qualquer outra coisa do género, já passou; e segundo este autor, não é de esperar que volte. Portanto não se pode afirmar que alguém anda ou não anda na moda, que alguma coisa está na moda ou fora de moda.

Isto tudo é consequência, segundo ainda o mesmo pensador, do que ele chama o hiperconsumismo: ninguém se quer afirmar como pertencendo a uma ou outra classe, quer sim afirmar o seu próprio eu... livre, hedonista, procurando valorizar a imagem que criou para si.

E o que se passa na arte do vestuário, passa-se em todas as outras manifestações artísticas. É que os artistas sabem que a Arte não se impõe. E não há que procurar explicações racionais para o que cada um valoriza sob o ponto de vista estético! A menos que queiramos repetir os chavões das grandes damas do século dezanove, quando se elogiavam mutuamente pelo "Bom Gosto" que nisto e naquilo revelavam ter. Na Arte, hoje em dia, não há nada a demonstrar! Muito menos se deve ter a estulta presunção que "é assim que todos devem fazer".

Compreende-se e aceita-se que uma Ordem dos Médicos ou dos Farmaceuticos exija a todos os seus membros que, perante uma determinada patologia, passem a prescrever um novo medicamento B em substituição do antigo medicamento A porque se verificou que os efeitos curativos do novo são claramente superiores aos do anterior. Se um levava uma semana a curar uma dor na cabeça ou no cotovelo e o outro a cura apenas num dia, não hesitemos. Estamos aqui em presença de um avanço científico, fruto de uma actividade científica, que temos de encarar como tal.

Pelo contrário, se ordenarmos a todos os pintores que pintem segundo o gosto (ou, mais expressivamente, o bom gosto) de um determinado mestre, por mais popular, mais inovador, enfim, mais genial que ele seja, aniquilaremos esta forma de arte.

É por isso que são tão catastróficas as consequências de ordenar a todos os professores, a todos os ensinantes, a todos os educadores que instruam, que ensinem, que eduquem de acordo com um modelo congeminado pelos pseudo-cientistas da Educação; porque os gurus da Educação não são cientistas, são sim artistas. E, consequentemente, não devem nem podem dar indicações, muito menos ordens, aos seus confrades. Quando muito, que dêem exemplos!

2008.04.21

© J. M. S. Simões Pereira

_____

(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve “Convicções e Cepticismos

sábado, 18 de outubro de 2008

PAÍSES DO OCIDENTE E PAIS DIVORCIADOS

DISCRIMINAÇÃO DO PAI DIVORCIADO (*)


Ser pai divorciado ou em processo de divórcio é pertencer a uma raça inferior; e se o processo é no Ocidente, nos Estados Unidos mas provavelmente também na Europa, ser estrangeiro é mais um suplemento de inferioridade. Ai do homem que se divorciar num país que não é o seu de origem. Pode a mulher também não o ser. Mas é ela que é protegida, é ela que é a vítima, é ela que tem sempre razão, é ela que vai continuar a gozar o amor e a presença dos filhos, é ela que vai parasitar financeiramente o ex-marido a pretexto dos filhos mesmo que ele esteja disposto a ficar com eles, criá-los e educá-los sem pedir à mãe deles qualquer pensão, é ela que ainda se gaba que foi mulher de coragem por ter pedido o divórcio! Em que mundo, em que época, em que século vivemos nós?

Tantas discriminações que já foram arrastadas pelas enxurradas da História: o feudalismo, as cruzadas, a inquisição, a monarquia absoluta, a escravatura, a pena de morte nos países mais civilizados, o apartheid entre negros e brancos tanto nos EUA como na África do Sul, o muro de Berlim, os Goulag... Feministas proclamaram os direitos da mulher onde eles eram desrespeitados iniquamente pelos homens, outros proclamam os da criança, outros ainda os de tantas minorias humanas desde os canhotos aos homossexuais, e mesmo os de espécies de fauna ou flora em extinção ou dos animais de laboratório ou dos que abatemos e nos servem de alimentação.

Falta quem defenda os últimos discriminados, os homens, pais de filhos menores, em processos de divórcio.

_______

(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.
© Editora Luz da Vida, Lda.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

EU, NÃO!

EU, NÃO!

Eu? Não!

Porque é sabido
que à nuvem não pertence o azul e o púrpura,
à mão cheia de espuma não pertence o mar,
à pétala, à flor, ao ramo não pertence a árvore…
Nem a Terra pertence ao roble secular.

Eu? Não!

Ao eco do meu grito não pertence o claustro,
e ao deslizar da lágrima não pertence o Mundo.

Eu, não!

Tu? Sim!

Tu és a força, a fonte e o alfa da vida
Tu és a porta, o portal, a entrada triunfal
Tu és o caminho, a estrada, a trajectória astral
A luz, o absoluto, a certeza e o tudo!

Tu, sim!

E os outros?

Nem sequer percebem que nós existimos.
E perceber para quê?
Nuvens, flores de espuma, ondas, solitões,
só se o dilúvio se abater sobre eles…
Pétalas, ramos, árvores? Já viram algumas,
bordejando avenidas.
Robles seculares? Eles sabem que os há,
longe, muito longe, fora da cidade.
Urbanos que são,
será que pisarão?…
que pisarão, jamais,
o húmus dos rurais?

Os outros? Sim, talvez!

Figueira da Foz, 2007-02-09
Este poema não está integrado no livro "Amor Explorado" que a Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra) publicou.
© Zé-Manel Polido

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O FAMIGERADO PROBLEMA DOS EXAMES

O FAMIGERADO PROBLEMA DOS EXAMES

Permito-me trazer à colação um dos ingentes problemas a que se dedicam os peritos das Ciências ditas da Educação: devemos ou não sujeitar crianças e adolescentes a essa tortura monstruosa que no século dezanove se aplicava nas escolas e que dava (e dá) pelo nome de EXAMES?

Mas claro que não, diz a maioria daqueles preclaros especialistas. Exames para avaliar o que os alunos aprenderam? Mas isso que importa? Vamos submetê-los a umas horas de um enorme stress, capaz de os traumatizar para o resto da vida. Se na vida não há stress, para quê obrigar os jovens a saber o que isso é? E porventura podemos avaliar alguém só por essa simples vertente? Façamos sim avaliação contínua, durante o ano lectivo. Essa ainda pode valer alguma coisa. E há imensas outras competências que não se podem avaliar num exame e são pelo menos tão decisivas para triunfar na vida como os conhecimentos adquiridos sobre qualquer matéria, seja Português, Inglês, Matemática, História, Filosofia...

E sabemos, ou julgamos saber, que os povos verdadeiramente avançados já há muito acabaram com os exames... a Finlândia, por exemplo, ao que por aí consta. É por isso que os jovens finlandeses andam todos felizes e nunca, mas nunca mesmo, fazem disparates nas escolas.

Pois é verdade, este será um primeiro passo para entrarmos na era da avaliação contínua e global. Diz-se, aliás, que as provas e competições desportivas, como os Jogos Olímpicos, por exemplo, são um repugnante vestígio de um passado bárbaro que devia ser a vergonha dos gregos antigos que os inventaram. As medalhas vão passar a ser dadas pela avaliação contínua dos atletas nos treinos durante cada período de quatro anos. Quem tiver melhor avaliação, quem tiver sido mais assíduo aos treinos, tiver obtido melhores tempos no estádio da sua cidade, sem stress, bem apoiado pelos seus amigos, familiares, treinadores e dirigentes, no clima a que está habituado, enfim, com todo o conforto, esse é que ficará com a medalha de ouro; o que tiver uma avaliação um pouco mais baixa, mas ainda assim superior aos outros todos, esse ficará com a medalha de prata. E assim sucessivamente... todos aliás terão medalhas... de bronze, de ferro, de níquel, de cádmio, de papel, de plástico (biodegradável, evidentemente!)...

É de facto traumatizante obrigar os atletas a mostrar as suas capacidades longe da sua amada pátria, num ambiente de concorrência com outros que eles nem sequer conhecem, que falam outras línguas, que têm outros hábitos. E, drama dos dramas, pôr em risco quatro anos de treinos numa prova que, por exemplo, nos 100 metros, dura hoje menos que 10 segundos... É sem dúvida o cúmulo do absurdo!

E mais, o valor de um desportista não reside só nas suas marcas. Um desportista que corra os 100 metros em 15 segundos pode ter qualidades humanas muito superiores a um que os corra em 10 segundos. Pode, no futuro, quando por força da idade tiver de abandonar a competição e passar a dirigente desportivo ou professor de educação física, mostrar ser mais competente e mais bem sucedido que outro que, na juventude, tenha alcançado melhores marcas. Não pode ser só pela atribuição de um número que se classifica uma pessoa. E um desportista é uma pessoa!

Por tudo isto vamos avançar rapidamente para um novo sistema de avaliação dos atletas em que as provas em estádio sejam completamente eliminadas. Será o fim do stress de que hoje são vítimas todos os que se dedicam à alta competição. Saudemos, pois, o advento desta nova era no mundo do desporto. Introduzamo-la rapidamente.

Parece que a Finlândia o vai fazer já este ano na modalidade de esqui alpino: vão passar a contar o número de descidas que cada um faz por semana, o número de quedas, os dias em que faltaram aos treinos, se ficaram a transpirar ou não depois de cada descida, como se comportou o batimento cardíaco e como variou a taxa da glicémia após cada treino, enfim, será com este acompanhamento contínuo que depois, no período que no futuro substituirá o mês dos exames -- perdão, o mês dos campeonatos -- se atribuirão medalhas e se registarão recordes.

Claro que o sistema também vai ser aplicado no volei, no hoquei, no basquete, no futebol... Não haverá mais campeonatos do modelo actual. No futebol, por exemplo, que tanto encanta os portugueses, não se pode decidir quem é o melhor no curto período de uma hora e meia. Vamos decidir quem será campeão avaliando continuamente os treinos, incluindo os períodos de aquecimento... Os esquemas actuais ficarão na História como exemplos do barbarismo da nossa civilização. Aliás passará a haver também uma avaliação dos treinadores e dos árbitros: quanto aos treinadores, os melhores serão aqueles que souberem motivar a sua equipa a treinar esforçadamente mesmo sabendo que não vai haver, nos jogos em que participarem (jogos amigáveis, claro, que serão os únicos que subsistirão), nem vencedores nem vencidos; e quanto aos árbitros, os melhores serão aqueles que consigam dirigir os referidos jogos sem mostrar cartões vermelhos ou amarelos. Têm de ser capazes de arbitrar tão bem que nenhum jogador pratique qualquer falta sobre outro jogador. Um bom árbitro tem de conseguir, com a sua simples presença, motivar os jogadores a darem o seu melhor com correcção, e, portanto, se mostrar cartões é porque não sabe ser bom árbitro.

O Mundo avança e só os mais empedernidos conservadores é que duvidam destas extraordinárias transformações da sociedade que nos farão a todos sentir à porta (ou será a Leste?) do Paraíso.

Escrito a 2008.07.09, afixado hoje, com uma pequena alteração, 2008.10.02

© Zé Manel Polido

terça-feira, 30 de setembro de 2008

ESMERALDA E O SEU PAI (BIOLÓGICO CLARO ESTÁ)

Hoje, 19 de Janeiro de 2009, estou a acrescentar algumas palavras à mensagem que afixei em fins de Setembro e cujo texto se pode ler em baixo.

O que eu quero acrescentar hoje é que me parece que o pai biológico vai poder finalmente ter a grande alegria de conviver com a sua filha.

O que é que eu espero para ser coerente com as minhas convicções? É que ele não se vingue dos pseudo-pais afectivos e não passe agora a ser ele a querer convencer a filha que eles eram os lobos maus.

Se o pai biológico não embarcar em tal comportamento de vingança, acho que a criança vai crescer sentindo-se feliz.

******

Segue-se o meu cartaz de Setembro:

*****


É profundamente revoltante que se manobre uma criança para odiar o próprio pai. E isto é, a meu ver, o que têm feito os que até ao momento detêm a criança.

Pois que efeito têm eles pretendido, desde o tempo em que a mãe adoptiva andou fugida com a pobre criança (é que até é ofensivo usar-se esta palavra ... mãe... mesmo adoptiva, para aquela senhora)

Uma criança deve ser ensinada a ter medo dos criminosos, isso está certo, mas o pai biológico não me parece que tenha o que quer que seja de criminoso.

O facto de uma criança amar os pais, biológicos ou adoptivos, com quem vive, não a impede de amar os tios, os avós, os padrinhos, os primos... e de os visitar e conviver com eles.

A vergonhosa manipulação que os pseudo-pais adoptivos fazem na pobre Esmeralda, apresentando-lhe o pai biológico como se ele fosse o lobo mau da história do capuchinho vermelho, é do mais revoltante que há. Ante a passividade de um sistema e de uns técnicos que não devem saber o que são sentimentos humanos de amor, tolerância, partilha... e por isso são cúmplices nessa situação monstruosa.

Se, apesar de tudo, essa criança conseguir chegar à idade de compreender a vida com as suas capacidades intelectuais intactas e com um espírito crítico suficientemente desnvolvido para não ser -- o que muita gente hoje infelizmente é -- um boneco manipulado pelas opiniões que lhe berram aos ouvidos, bom... não tenho dúvidas que vai sentir contra os pseudo-pais adoptivos uma tremendíssima revolta! Porque acredito numa frase que um dia, há largos anos, ouvi numa peça de teatro dramática. Não recordo o autor mas citarei a frase que tenho visto sempre confirmada:

"A vida faz sempre valer os seus direitos!"

terça-feira, 23 de setembro de 2008

SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL

PAI BRUTO E MÃE SANTINHA!

Muito se discute agora a nova lei do divórcio. Há 3 anos, mais precisamente a 17 de Abril de 2005, respondi com o texto abaixo transcrito à pergunta ‘’Que acha do Poder Paternal em Portugal?’’ que alguém colocou num site da Internet que agora já não consigo identificar. Infelizmente, o texto continua actual!


A minha opinião sobre as leis que temos é que estão feitas para o seguinte contexto:

Quem faz e como se faz um filho? À boa maneira do galo ou do touro, o machão acorda de manhã, cheio de energia, quer descarregá-la e procura uma fêmea. Encontra-a, deita-lhe as garras, domina-a, violenta-a, viola-a, abandona-a ferida e lavada em lágrimas e vai à sua vida. Nem sabe que a "emprenhou". Ela coitadinha leva a gravidez ao fim e cria a criancinha. E o bruto, que faz isto todos os dias, ou, pelo menos, dia sim dia não, nem quer saber quantos filhos tem... talvez centos deles, como o coronel Buendia, personagem do livro "Cem Anos de Solidão" do Garcia Marquez.

É para uma sociedade em que os homens são assim que a lei e os juízes trabalham.

Agora eu pergunto: Nós, os homens divorciados de hoje que somos ou fomos pais de filhos menores, é assim que nos comportámos no passado e que continuamos a viver no presente? Se é assim, temos o que merecemos! Se não é assim, é tempo que se mudem as leis ou a prática das mesmas, que não esqueçamos que os homens também têm afectos, que também choram com a falta dos filhos, que muitos até se dispõem a criá-los sem receberem das ex-mulheres pensões de alimentos, que enfim também são vítimas, nesta discriminação dos sexos, talvez a última que tem de ser denunciada no chamado mundo ocidental... Sim, aqui a vítima é o homem e o verdugo é a mulher...

E se quiser saber mais leia os meus livros "Amor Explorado" (entre outros há vários poemas que dedico aos meus filhos e são poemas para entender, sem metáforas nem símbolos!) e "Amor, Solidão e Fé" (em prosa, meditações sobre a família), ambos publicados pela Editora Luz da Vida, Lda., Apartado 10048, 3031-601 Coimbra.

Os críticos têm silenciado estes livros e as livrarias chegam a dizer que não os têm ou que não sabem de onde os mandar vir... Espantoso, não é? É o medo de gritar que o homem também sofre violências da mulher. Dizer isto não é politicamente correcto. E todos se acobardam. Eu não! Vamos em frente!

E assumi este texto há 3 anos, tal como o assumo hoje! Assinei e assino!

Zé-Manel Polido


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

VOCÊ AMA AS PESSOAS !

VOCÊ AMA AS PESSOAS. VEJO ISSO NOS SEUS OLHOS! (*)

E entretanto continuarão os cães a vir abocanhar-te, morder-te, estraçalhar pedaços do teu corpo cansado e da tua alma sofrida? E tu, resignado, conformado, sempre polido, a alimentá-los enquanto de ti restar o suficiente para te manteres de pé? Estarás certo?

Que Deus nos responda... [ … ] Mas Ele já o fez! Recorda as respostas, uma só que seja. Não lembras um dia, nas horas de ponta, ao cair da tarde, ao saíres do trabalho, parares junto a um jovem que tocava guitarra? Estação do metro, Rua 68 e Avenida Lexington, em Nova Iorque, numa das suas zonas elegantes! Olhaste para ele com a simpatia que olhavas sempre os que vias sozinhos entre as multidões, os que vias à margem, os que pareciam ser elos partidos da cadeia humana. E meditaste um pouco sobre os dramas ocultos naquelas melodias. Para começar conversa, para lhe fazer sentir que ele para ti era gente, perguntaste-lhe que música estava ele a tocar, e tiveste a certeza de que, assim como tu, ele carregava e escondia a sua própria tragédia. Diálogo tão breve, duraria um minuto? Mas uma desconhecida que observou a cena olhou-te bem nos olhos e disse então simplesmente: – “You love people! I see it in your eyes, that you love people!” Ainda a questionaste se ela era psicóloga... Que não, retorquiu-te... Na cidade com alma invisível em cujas ruas tantos milhões formigam, cruzaram-se dois, ou talvez fossem três, que tinham coração!

E inexoravelmente, quando esse ou algum momento semelhante evocas, continuas a querer ajudar os outros, a gostar das pessoas, a acreditar na natureza humana. É o teu destino, o teu fatalismo!

E partes com reforçada coragem para uma nova etapa, um novo dia, uma nova missão; a enfrentar mais um desafio, a arrostar com mais um rosário de amarguras, a tentar realizar mais um sonho. Porquê? Para quê? Com o testemunho do astronauta Titov te identificas, sentes como ele sentia e não esqueces o que ele disse: – “Gosto da vida! É pela vida que eu vou partir!”

______

(*) Estas são as linhas finais do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

GOSTO DA VIDA! disse o cosmonauta Titov...

GOSTO DA VIDA! É PELA VIDA QUE VOU PARTIR! (*)

Inesquecível também uma outra lição vinda da Rússia, quando se iniciavam os voos espaciais tripulados.

O primeiro astronauta foi o russo Iuri Gagarine, que entrou para sempre na História ao dar uma volta à Terra em 108 minutos. A notícia colheu o Mundo de surpresa pois a viagem fora preparada no maior secretismo. O segundo, também russo, foi German Titov, que passou em órbita um dia inteiro e já foi autorizado a falar com jornalistas pouco antes da descolagem da nave. Pede-lhe um deles que resuma o que sente naquele instante. Os astronautas eram então “aves” muito raras, misto tão esquisito de atletas, heróis, engenheiros e suicidas que ninguém sabia o que pensavam, o que sonhavam, o que os movia.

Pois ele respondeu, directo e singelo, com uma síntese admirável do que faz ou deve fazer correr todos os cientistas, todos os pioneiros, todos os que, arrostando perigos da mais variada espécie, plenamente se entregam ao serviço do progresso e da Humanidade: – “Gosto da vida; é pela vida que vou partir!...”

Maravilhoso testemunho, quando li a reportagem não pude conter as lágrimas.

______

(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

sábado, 13 de setembro de 2008

SÓ HOJE É QUE O MUNDO ESTÁ PERDIDO?

UMA PERGUNTA AOS PESSIMISTAS: SÓ HOJE É QUE O MUNDO ESTÁ MAL? (*)

Mas então não há coração no mundo? Nunca houve? Não vai haver?

Por toda a parte se vê efusão de sangue, homicídios, furtos, fraudes, corrupção, infidelidade, revolta, perjúrio…

Males do nosso tempo? A transcrição não é dos média de hoje… É um versículo da Bíblia, Livro da Sabedoria, capítulo 14, versículo 25

-------

(*) Extracto do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

AMAR O PRÓXIMO! MAS QUEM É O PRÓXIMO?

O AMOR AO PRÓXIMO E A HABITUAL MAS ERRADA INTERPRETAÇÃO DO TEXTO BÍBLICO (*)

Deus fez-me ver que o precioso e maravilhosamente lapidado diamante que eu pensava ser o amor dela era afinal um estilhaço de vidro velho. E assim me aliviou a dor de o ter perdido. [ … ]

– “Ajuda-me, ó Deus, a nunca mais o esquecer! E se eu reconheço o teu amor por mim, ajuda-me a corresponder-lhe. Há momentos da vida em que nos pedes firmeza, desassombro, assunção plena da nossa dignidade, criada à imagem da Tua. Em que não há lugar para branduras. É nisto que me reconheço culpado. É nesta linha de pensamento que, diante de Ti, o mais importante grito desta página é um pedido de perdão que Te venho fazer pelo bem que desacertadamente pratiquei e por ter amado tanta gente errada!

Reler o teu Evangelho ajudou-me a perceber quanto eu me enganei! Sim, está em Lucas, no capítulo 10, versículo 27: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” E depois vem a parábola do homem que caiu nas mãos dos salteadores e ficou jazendo na beira da estrada. A seguir, a pergunta frontal: “Dos três... (o sacerdote, o levita, o samaritano)... qual te parece ser o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?” E a resposta: “O que usou de misericórdia para com ele”. E Jesus aconselhou o seu interlocutor a “fazer do mesmo modo”. Tudo bem. Mas uma questão devia aflorar imediatamente ao nosso espírito: ─ Onde é que Cristo diz que “próximo” é sinónimo de “toda a gente”? Ele claramente perguntou qual dos três tinha sido o próximo do homem agredido; e não contestou a resposta que lhe foi dada, que foi aquele que o ajudou. Portanto, o sacerdote e o levita não o foram; nem, com muito mais razão, os salteadores. “Amarás o teu próximo!” não significa pois “Amarás toda a gente!”

O bom conselho de Jesus é que procedamos como o samaritano, que nos façamos próximos de quem de nós precisa. Mas àquele que por nós passa com indiferença, àquele que não usa de misericórdia para connosco, àquele que selvaticamente nos agride, a esses não nos exige que os amemos; pois nem diz para amarmos toda a gente – mas sim o próximo! – nem que o sacerdote, o levita e os salteadores foram, como o samaritano, igualmente próximos do homem agredido. É o que se lê, preto no branco, neste importante e tantas vezes citado capítulo dos Evangelhos!

Esta é para mim uma indicação clara que Deus não espera nem exige que retribuamos com amor a indiferença e, muito menos, a crueldade dos outros. Ao esquecermos este princípio, traímos a mensagem de Cristo. Falamos muito “no dar a outra face” e esquecemos o chicote com que Ele correu os vendilhões do templo ou a maldição que lançou à figueira pelo simples facto de ela não ter frutos. E com essa postura contribuímos para que a iniquidade continue.

Judeu que era – não o esqueçamos! – Cristo certamente terá lido esta afirmação que recordo ver citada do Talmude: “Quem é piedoso com os cruéis, acaba sendo cruel com os piedosos”. É por estes motivos que eu venho penitenciar-me. Por não ter interiorizado a parábola do samaritano e não ter conhecido o pensamento do Talmude, uma vez mais Te rogo, ó Deus:

– Perdoa-me! Não fui justo, não chicoteei os vendilhões, não amaldiçoei e fiz secar as figueiras que não me deram frutos!”

______

(*) Estas linhas que questionam a totalmente ilógica mas sempre repetida interpretação que a Igreja Católica Romana dá à parábola do samaritano são extraídas do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.
© Editora Luz da Vida, Lda.

sábado, 6 de setembro de 2008

UM POEMA DE LUZ COMPASSO

Várias personalidades (o Mário Soares e o Miguel Veiga, por exemplo) tiveram direito a escolher poesias para as antologias da série Os Poemas da Minha Vida que o jornal Público editou.

Eu também tenho o direito de fazer a minha escolha!

Por isso, sem comentários específicos que eles também não fizeram, vou afixar aqui um poema de Luz Compasso, extraído do seu livro "Roçai as Cordas da Harpa" (*):

FELIZ ÉS TU
Feliz és tu,
que viveste naquela
terra árida,
sem chuva,
sem vegetação,
sem lavrador e
sem semente
que germinasse no chão
do teu coração de pedra.
Porque agora é o tempo
em que não mais
terás pavor.
Eis que os teus inimigos
te observarão
quando subires
pela escada
e entrares
naquela porta
cheia de luz.

(*) Publicado pela Editora Luz da Vida, Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra.

Se gostou, pode procurar na sua livraria ou pedir directamente à Editora. Custa 10 euros.

Com pre-pagamento as despesas de envio são por conta da Editora.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

VAIDADE MINHA!

VAIDOSO EU? DESTA VEZ, SIM!

João de Castro Nunes, um dos poetas contemporâneos que mais admiro e a quem me refiro neste blogue num cartaz da categoria Literatura com o seu nome no título, dedicou-me um soneto. Claro que é razão para me sentir muitíssimo orgulhoso. Vou transcrever o referido soneto:

“Amor explorado”

Ao Poeta Zé-Manel Polido

Li seus poemas que me impressionaram

pela superação que patenteiam

das circunstâncias várias que geraram

as mágoas que os seus versos alardeiam.

+

Impressionou-me a forma da expressão

bastante original, sem todavia

em termos musicais pôr em questão

o clássico sentido da harmonia.

+

Vê-se que tem poético talento

predominando sobre todo o resto

o seu desencantado sentimento.

+

Em quanto escreve existe um grão de sal,

um fio de humorismo manifesto

que virtuoso faz o próprio mal!

João de Castro Nunes

JOÃO DE CASTRO NUNES

JOÃO DE CASTRO NUNES, O HOMEM E O POETA

JOÃO DE CASTRO NUNES é um homem da cultura, que como tal se afirmou no ensino universitário, e é também um grande poeta da língua portuguesa.

A sua enorme sensibilidade rebrilha nos seus versos. Cultiva o soneto à boa maneira dos clássicos, essa forma de Poesia em que a liberdade está muito longe de ser total. E apesar disso, a originalidade está lá, em cada um deles, o estilo que criou leva-nos a reconhecer o autor logo que lemos a primeira quadra, e a mensagem que cada um nos transmite - porque há, sim, uma mensagem em cada um dos seus sonetos! - é sempre límpida, compreensível, fluida.

Não deve haver quem o iguale, muito menos o exceda, quando exalta o amor à Mulher da sua vida, a sua Esposa e Mãe dos seus oito filhos. E esse amor não foi uma paixão frustrada, muito menos um fogo que ardeu e se consumiu, ou que não teve tempo de se desgastar porque as circunstâncias lhe puseram fim rapidamente; há génios da Poesia que cantaram amores desse tipo e não deixam de merecer a nossa admiração e o nosso respeito. Mas o amor que ele imortaliza nos seus sonetos foi constante, sereno e viveu-o seis décadas desde a juventude; aliás continuou a vivê-lo e vive-o hoje para além da morte com a mesma ou ainda maior intensidade.

Para quem porventura ainda os não conheça, permito-me aqui transcrever dois dos seus sonetos (sem lhe pedir autorização, é certo, mas são apenas dois entre as centenas que ele compôs!). Fui buscá-los ao livro “Orfeu resignado” (edição de autor, publicada em Arganil em 2007). Como a maioria das suas obras são edições de autor e por conseguinte pouco distribuídas, sugiro uma visita ao site do Movimento Cidadãos por Góis onde João de Castro Nunes colabora regularmente.

O URL é: www.portaldomovimento.com/joao_de_castro_nunes.html.

Não quero deixar de assumir que é perante o sentir de homens como ele que tenho de acreditar no género humano. Aqui estão os dois sonetos:

++++

Pelo amor que me deste e que eu te dei

amor sem par, sem peso nem medida,

marcado com punção de ouro de lei,

foi como um sonho, amor, a nossa vida!

+

Foram diversos anos que passaram

mais rápidos acaso do que a luz,

seis décadas que nos transfiguraram

em cireneus levando uma só cruz..

+

O sonho que vivemos não findou:

com algum exagero ou fantasia

direi que só agora começou..

+

Há-de no céu continuar um dia

quando o Senhor que nos desapartou,

quiser que eu vá fazer-te companhia!

+++

Eu creio em Deus, na vida além da morte,

não tanto por argutas teorias,

mas por amor do modo que tu crias

compartilhando a tua fé tão forte.

+

Porém, se acaso assim não suceder

e vão ter sido em Deus acreditar

por com a morte a vida terminar,

valeu a pena mesmo assim viver.

+

É que seguramente, na verdade,

nada é melhor do que a felicidade,

seja onde for, com a pessoa amada.

+

Se após a morte não houver mais nada,

bastou-me ser feliz contigo aqui,

pois tive o céu na terra ao pé de ti!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

AOS MEUS ALUNOS: UM VALOR A MAIS, UM VALOR A MENOS

Ainda vos afixo aqui mais uma mensagem!

Um de vós, que designarei por X, pediu-me uma correcção da nota lançada pois gostaria (e tem todo o direito a isso) de repetir o exame para a melhorar embora ela já seja muito boa.

Esse pedido me levou a tecer algumas considerações que creio serem úteis para todos vós.

Aí fica pois a resposta que dei ao vosso colega:

+++

Olhe, amigo X, claro que a sua nota foi obtida em avaliação contínua e, tendo havido erro
no lançamento, há-de haver maneira de o corrigir. E, obviamente, estou disposto a
fazê-lo. Claro também que terei gosto em falar pessoalmente consigo. Porque mais
importante talvez que tudo o que eu lhe tenha ensinado de Matemática será o que lhe
poderei dizer nessa conversa sobre a sociedade competitiva em que o nosso país (e o
X não se esqueça que é europeu) se vai transformando.

Porque me faz pena que o X, sem dúvida um jovem inteligente e capaz, em vez de
olhar para o futuro, olhe para passado! Eu, no seu lugar, buscava novos desafios, cada
vez mais exigentes, cada vez mais globais, talvez tentar já um pouco de actividade
profissional relacionada com o seu curso ou até fazer um pouco de investigação; tudo para começar a construir um curriculum à altura da sua
geração que garantidamente não se vai basear no 10, no 15, no 18 ou 19 ou 20 que tiver
em qualquer das dúzias de cadeiras que frequentar na sua formação.

Sabe, X, a última batalha que os jovens portugueses travam com a única arma das
notas é o 12º ano: e é para entrar ou não em Medicina. E até essa batalha já está a parecer
ridícula a muita gente que conhece o Mundo! O Mundo, para além de Portugal, esse
Portugal "de onde se não vê a Europa" para citar, se não estou em erro, Vitorino
Magalhães Godinho. Até porque a escala de 0 a 20 que nós ainda usamos, é uma das
nossas vergonhas nacionais: em quase todo o mundo dito civilizado, traduzidas por números ou por
letras, as notas de aprovação no ensino superior são essencialmente três: muito bom,
bom ou suficiente.

Eu sei dos muitos recém licenciados que se encontram no desemprego. Não creio que seja por causa das notas, de mais um valor ou menos um valor, não creio que se tivessem mais um valor na média já teriam um lugar, ou que se tivessem mais dois valores na média já teriam sido promovidos na empresa ou instituição onde trabalham. Certamente é importante, imprescindível mesmo, que cada um seja competente na respectiva área profissional; mas isso não basta. É preciso ter um nível de ambição consigo próprio que o leve sempre a olhar mais para o futuro do que para o passado; ter uma visão global que dê o devido valor às diversas vertentes que fazem de um activo um agente de progresso e que incluem, a par de variados valores humanos, a capacidade de perspectivar o seu próprio passado, sim, mas só para atacar o futuro, tudo aspectos de que antigamente nunca se falava durante a vida escolar. Deixá-los hoje em silêncio é atitude que revela vestígios de um passado em que se saía da universidade a saber tudo o que havia para saber, com a consciência tranquila de quem não vai precisar de aprender mais nada no resto da sua vida.

Jovens amigos, pensem nisto!


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O QUE APRENDI COM OS CIGANOS

ORGULHAR-SE DE SOBREVIVER: SER IRMÃO DOS CIGANOS (*)



Aprendi o que é ser agredido por alguém a quem demos muito mais que tudo o que temos, alguém a quem demos o que somos, alguém a quem nos demos nós próprios. Mas aprender é valorizar-se, é tornar-se superior ao que se era. A experiência é a mestra da vida e quem a tem ganha a verdadeira sabedoria. Nunca me deprimiu ser agredido, nunca amuei nem sequer quando criança… E conheço tanta gente adulta que continua infantil sob este ponto de vista… Numa situação como tantas por que passei, que berreiro não fariam… Serenamente, rendo a minha homenagem aos irmãos ciganos que me ensinaram duas quadras, de autor desconhecido, retrato da vida deles e da minha. Cito de memória:


“Quanto mais tempo se passa
Mais queixas minh’alma tem,
Sempre a ser tão ofendida
Sem ofender a ninguém.”


E ainda:


“Quem aprendeu a viver
Como nós, vida tão dura,
Nem pode sorrir na glória
Nem chorar na desventura.”

_____

(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.
© Editora Luz da Vida, Lda.




(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

TO A CHILD OF DIVORCE: THE CENTER AND THE MARGIN

Trata-se de uma versão em língua inglesa do poema inédito FILHO DE DIVÓRCIO que afixei neste blogue. É que os meus filhos nasceram e cresceram em Nova Iorque! As duas versões foram escritas no decorrer de um encontro de poetas que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sob o lema "O Centro e a Margem"; havia um grande nome anglófono como convidado de honra e eu ofereci-lhe as duas versões. Não sei se ele se dignou ler a inglesa! Talvez até tentasse e não conseguisse. Porque o Inglês é mau? Porque não percebeu de que se trata? Um homem pode ser um génio e não compreender muitos problemas que há no Mundo; os alemães têm uma palavra que descreve tais homens, aliás sem conotações negativas: FACHIDIOTEN.


To a Child of Divorce: the Center and the Margin

Central is the dollar, the euro or the pound!

My son, my darling, how sad I must sound!

Beyond silver, gold,

and jewels that glow,

nothing is of value

for your Mom,

the Court,

even Grandma… I know!

That Dad hugs you,

they surely don’t allow.

And that I stay away

is written in the law!

My love? You never saw

how far it can go.

Such an absurd pain…

alone, on the margin,

forgotten, I remain.

Zé-Manel Polido(*), 2004-05-24


*) Zé-Manel Polido is my pen name. This poem was never published. It is not a translation of anyone of the poems in my book “Amor Explorado” (Editora Luz da Vida, Lda. Address: Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra - Portugal).

FILHO DE DIVÓRCIO: O CENTRO E A MARGEM

Este pequeno poema foi escrito no decorrer de um encontro de poetas que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sob o lema "O Centro e a Margem"; não me recordo se alguém o leu. É pouco provável, porque o tema era (e é) politicamente incorrectíssimo.


“Ao Filho de um Divórcio: O Centro e a Margem”

No centro, o dólar!

Que amargura, meu filho…

Além do vil metal,

nada mais valia

para a mãe,

para o tribunal

e até para a avó… eu sei!

O amor do pai,

não viram que existia.

Absurdo da dor

consagrado na lei!

Por isso, abandonado,

longe de ti, à margem,

foi assim que fiquei!”

Zé-Manel Polido(*), 2004-05-24


*) Assino como Zé-Manel Polido os livros “Amor Explorado” e “Amor, Solidão e Fé” (Editora Luz da Vida, Lda. Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra). Mas este poema é inédito.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A CHÁRIA ISLÂMICA OU O PARASITISMO OCIDENTAL?

CHÁRIA ISLÂMICA E PARASITISMO DA DIVORCIADA OCIDENTAL (*)

Quero pois associar o meu grito ao teu, num apelo à consciência colectiva contra uma última discriminação das sociedades ditas ocidentais, discriminação essa em que nem políticos, nem líderes religiosos, nem fabricantes ou fazedores da opinião pública parecem reparar. As vítimas são os homens, eles próprios no seu orgulho idiota pouco propensos a assumirem-se como tal. Mas assim como ninguém defendia as mulheres enquanto elas, porque se envergonhavam de assumir ser vítimas de abusos sexuais ou violências domésticas, não apareceram na ribalta, assim ninguém reparará em nós, homens, enquanto tivermos vergonha de gritar na rua a nossa dor, de chorar em público as nossas mágoas, de ameaçar nos media todos os que, e principalmente todas as que, contínua, cínica, farisaica e estupidamente nos ferem.

Quero contigo desmascarar o parasitismo da divorciada e o negócio repugnante que é transformar os filhos em mercadoria, sequestrá-los e pedir por eles resgates com o apoio de legislações tão paranóicas como eram as do tempo da escravatura, da inquisição, do apartheid! Todas eram sagradas no seu tempo. Todos lhes deviam obediência e respeito. Mas aos olhos pretensamente civilizados com que hoje as vemos, eram a encarnação demoníaca do obscurantismo. Exactamente assim aparecerá, aos olhos das gerações futuras, o enquadramento jurídico que hoje o Ocidente dá às leis da guarda de crianças, nos casos cada vez mais frequentes de divórcio dos pais!

Preocupam-se muito alguns tartufos deste nosso dito Primeiro Mundo com a situação das mulheres nos países islâmicos, onde a “chária” as reduz a papéis secundários de subalternidade. Zelotes! Esquecem-se que têm nos seus países esta situação paralela em que os homens, e não as mulheres, são as vítimas indefesas, escorraçadas, espezinhadas, exploradas! Acredito nesta prosaica verdade, que muita gente finge esquecer, que é pela nossa casa, e não pela casa dos outros, que devemos começar a arrumação e a limpeza!

Veja-se este modelo de justiça: rouba-se um automóvel ao seu legítimo dono; ao gatuno será dado o direito de o conservar em seu poder, ao dono recusa-se o direito de o reaver e impõe-se-lhe ainda a obrigação de continuar a pagar o seguro, o imposto de circulação e as despesas com a manutenção e revisões mecânicas; enfim o ladrão concorda em pagar a gasolina e aceita que o antigo dono o utilize uma vez de quinze em quinze dias.

Que diríamos nós se a legislação das sociedades em que vivemos enquadrasse estas situações e as resolvesse da forma paradoxal acima descrita? Absurdo? Esta é a situação vivida por uma imensa maioria de pais divorciados, a quem subtraem arbitrariamente os filhos, mas que nem por isso são dispensados da obrigação de os manter, por vezes em ambientes artificialmente montados com luxos supérfluos, retendo apenas o direito de os verem de quinze em quinze dias. Seria exactamente a mesma situação que a apresentada acima, mas na verdade é ainda pior, pois que custa muito mais perder um filho que um automóvel, mesmo um topo de gama...

______

(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

DIVÓRCIO NOS PAÍSES OCIDENTAIS

FUNDAMENTALISMO NO DIVÓRCIO À OCIDENTAL (*)

Interrogas-te se virá o dia em que, a pretexto de pensões alimentares em atraso, a mulher terá o direito de vender os órgãos do ex-marido que previamente mandou assassinar. E tudo te parece indicar como resposta: – Talvez!

Tu sobreviveste a esse cataclismo que é a última discriminação das sociedades ocidentais: a que se abate sobre os homens divorciados que são pais de filhos menores. E em seguida à condição de filho mal amado, uma tortura psicológica menos usual mas ainda mais avassaladora.

É certo que amaste a tua ex-mulher e era com dor que vias crescer, primeiro a antipatia da tua mãe por ela, depois – consequência natural! – a incompatibilidade entre as duas. Enfim ela pediu o divórcio porque não queria que a sogra, directamente ou por teu intermédio, influenciasse os vossos filhos. Queria ter o poder de os afastar de vós. Estranho, como tudo se manipula… mas manipula! Durante mais de uma década a seguir ao divórcio, serviu-te, fria, a vingança contra a tua mãe que vias em declínio e sofrimento pelo cruel afastamento dos netos, e que, hora a hora, acompanhaste. E um dia, antevendo a solidão, tornaste a casar. Assististe então, com horror e fascínio, a um fenómeno raro nas relações humanas: viste a tua mãe transferir para ti e para a tua actual mulher o rancor que tivera à primeira, e para esta, esquecendo o passado, o amor imenso que – ainda hoje o crês – sempre te dedicara. Ominosa permuta de amor por ódio e de ódio por amor!

“Quando se passa por uma tal experiência” – disseste – “só pela confiança num Deus que nos liberta de angústias julgadas insuperáveis é que nos salvamos de personificar o mais acabado e completo cínico, para quem nenhuma relação humana é genuína.”

Este livro são cartas nunca expedidas e páginas de um diário que afirmas ser o teu legado, o teu único legado: podia muito bem intitular-se Autobiografia de um Louco. Quem o ler alcançará o que tal título traduz! E contemplará alguns fios dessa inefável teia de sentimentos, centrada na personalidade enigmática da tua mãe, ao recordares momentos de amor e solidão que atravessaste sem nunca perderes a fé.

______

(*) Estas são as palavras com que abre o livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

ZÉ-MANEL POLIDO, A VOZ DO PAI DIVORCIADO

ZÉ-MANEL POLIDO

E O SILÊNCIO SOBRE O PAI DIVORCIADO

Quem ousa desafiar The Establishment?

Como já afirmei noutro cartaz que afixei neste blogue, ser autor e editor é uma curiosa experiência que muito nos ensina sobre a sociedade em que vivemos, neste caso, a portuguesa ou, mais propriamente, a ocidental. Os dois livros que publiquei sob o pseudónimo de Zé-Manel Polido “Amor Explorado” e “Amor, Solidão e Fé” (Editora Luz da Vida, Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra, URL: www.luz-da-vida.com.pt) viram-se cobertos por um manto de silêncio só por tentarem trazer à luz do dia um drama politicamente incorrecto: a discriminação contra o pai divorciado. Para o leitor mais interessado, afixarei neste blogue alguns fragmentos do “Amor, Solidão e Fé”.

Entretanto o texto que segue foi extraído, com ligeiras adaptações, de um capítulo do meu trabalho final no curso de Pós-Graduação em Edição, Livros e Novos Suportes Digitais, na Universidade Católica de Lisboa, apresentado em Setembro de 2006. Continua válido! Deixo ao leitor a tarefa de tirar as suas próprias conclusões.

O silêncio que assassina:

Há, de facto, uma espécie de conspiração de silêncio sobre tudo o que não seja enquadrável no que, anos atrás, a geração contestatária chamava The Establishment; as gerações actuais deparam-se com idênticas barreiras no Establishment contemporâneo se pretenderem dizer o que não é politica, social ou religiosamente correcto.

Concordamos com o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, quando afirma, na entrevista publicada no número de Agosto de 2006 da revista Os meus livros: “A mim, o que me choca mais, mais do que dizer mal, é o silêncio que assassina”.

Cremos que o jornalismo em geral – talvez seja melhor dizer o “quarto poder” – é o principal responsável por essas barreiras de silêncio que se abatem sobre os recém entrados, como autores ou editores, no meio literário. Responsabilidade a começar nos críticos e comentadores e a acabar nos fazedores de opinião televisivos!

As promoções dos que não precisam delas:

Tem-nos efectivamente surpreendido o efeito “bola de neve” que é prevalecente a nível da promoção de edições literárias por todos os agentes envolvidos neste meio. Sem esquecermos as livrarias! Vejamos que, se uma determinada obra já vendeu 100 mil exemplares, em princípio não precisa de ocupar uma montra inteira; mas ocupa! Porque se está a obter um tão grande sucesso, é óbvio que a livraria a tem à venda e qualquer interessado em comprá-la pode entrar confiante e adquiri-la sem precisar de a ter visto na montra.

O mesmo se diga da postura das páginas literárias de qualquer revista ou suplemento da imprensa escrita: será preciso que todos analisem e reanalisem à exaustão o best-seller do momento, o seu autor, as obras que acabam de ser publicadas a reboque do mesmo tema e que esperam ter sucesso à sombra da primeira, as opiniões que outros críticos já emitiram a seu respeito?... Parecer-nos-ia que não, que não seria necessário prosseguir com super promoções de um produto cujo êxito já se confirmou; mas o que na realidade sucede é o contrário do que pareceria lógico. Os exemplos são por demais conhecidos e não vamos especificá-los por motivos óbvios!

Os temas de sucesso garantido:

Outro efeito que dificulta a vida aos referidos recém entrados é a prioridade dada a tudo o que tenha êxito comercial assegurado sem que minimamente se atenda à qualidade literária, para não dizer linguística e mesmo gramatical, ou à mensagem que a obra traz (ou não traz) consigo.

Se uma figura mediática, de preferência futebolista ou quejando, manequim, apresentador de programas televisivos ou vedetinha de telenovela ou de reality shows fizer publicar um livro sob o seu nome (no sistema de ghost writing, é claro, quer dizer, redigido total ou quase totalmente por um profissional da escrita), esse livro tem garantida uma enorme publicidade a todos os níveis e por todas as formas; e haverá, em consequência disso, ou talvez até sem necessidade disso, milhares de leitores interessados em o comprar, sejam homens que não realizaram o sonho de serem goleadores, mulheres que não realizaram o de se passearem em passerelles, jovens que não realizaram o de ser escolhidos num casting para algumas semanas depois entrarem na sua escolinha de peito inchado porque os outros meninos os viram na véspera na televisão.

Mencionemos ainda a prioridade dada às obras sobre temas em voga, as quais também têm êxito imediato: o centésimo romance dedicado, por exemplo, à violência do homem sobre a mulher vende tantos milhares de exemplares como vendeu o nonagésimo nono, o nonagésimo oitavo, o nonagésimo sétimo, etc. Porque este drama que, no nosso país, durante décadas se escondeu atrás do alcoolismo endémico dos rurais, agora publicita-se para evidenciar a emancipação da mulher urbana portuguesa! Dir-se-ia que ao mundo cinzento da aguardente cachaça e do vinho carrascão se igualou afinal o das flutes e do Johnnie Walker…

Mas mesmo que o tema nada tenha a ver com Portugal, desde que seja politicamente mediático… publique-se já! Os taliban impondo a burka no Afeganistão? Importantíssimo! Publique-se já! Os machistas da Arábia proibindo as mulheres de guiar automóvel? Verdadeiramente dramático! Publique-se já! A protagonista sofrendo a excisão do clitóris na África? É essencial que fique a saber dessa estúpida prática quem ainda não ouviu falar dela! Publique-se já! E publique-se já porque todas as páginas literárias vão dedicar parangonas a essa nova obra… embora nela nada mais se diga para além do que já foi dito e redito noventa e nove vezes…

Os poetas e o seu Gotha; alguém entende o que eles escrevem?

Enfim não esqueçamos as obras de poesia: ou o autor já entrou numa espécie de Gotha de poetas, um misterioso catálogo virtual de autores que são considerados poetas, ou não. Se entrou, vende o seu livro aos outros membros do Gotha; se não entrou, não vende a ninguém.

É certo que a poesia contemporânea são sequências de palavras cujo sentido provavelmente só quem está no tal Gotha ou vive ao seu serviço é que pode entender… São eles quem finge receber a mensagem, descodificando o que hoje chamam poemas, fiadas de algumas poucas palavras impressas no fundo de uma página; e parece que é importante ser no fundo, pois no cimo desvaloriza o conteúdo; ah! e o papel, sim, é de boa qualidade e a fonte tipográfica bem escolhida, pormenores cujo desrespeito levaria a que parte da mais-valia da obra se perdesse para sempre! Ao receberem tais mensagens, os eleitos vivem a mesma transcendência que sempre viveram os místicos, desde que a humanidade se conhece, quando afirmam percepcionar revelações do além através de visões ou vozes que só eles apreendem.

Em contrapartida ao que acabamos de dizer, qualquer livro de versos à moda antiga, ou seja, portador de uma mensagem e escrito em linguagem que todos entendam, com algum ritmo, métrica ou – pecado dos pecados! – rima… não é visto como poesia e resta-lhe candidatar as suas páginas a letras de canções ligeiras…

Ensaios e os partidos ou congregações apoiantes dos seus autores:

Quanto a ensaios e livros técnicos, assinalemos apenas que alguns problemas atrás mencionados também atingem o ensaio. Tornou-se claro para nós que a recensão de um ensaio por críticos literários das publicações de referência não tem nada a ver com o mérito respectivo! É que, também aqui, nem uma crítica negativa se pode esperar…

Se o autor do ensaio não for um consagrado – e pode sê-lo com inteira justiça pelo seu reconhecido talento e competência mas também pelo simples facto de ter um partido político ou uma congregação, religiosa ou agnóstica, atrás de si – ou se a editora não tiver o nome feito – e pode tê-lo pelos mesmos motivos que consagram um autor – não há sequer menção da obra; só o silêncio, o “silêncio assassino” de que Letria fala, a cobrirá…

O livro técnico e a fotocopilhagem:

E para não deixarmos de referir os livros técnicos destinados especialmente a apoiar os estudantes universitários portugueses, desses recordaremos um problema, este bem geral, que comercialmente afecta todas as editoras e todos os autores, consagrados ou não, estreantes ou veteranos: a fotocopilhagem, neologismo que alguém cunhou para designar o fenómeno que consiste em poupar uns cêntimos renunciando à capa dura e à boa encadernação e gramagem das páginas de um livro que poderia servir uns anos no estudo e na profissão, para usar em sua substituição umas folhas soltas e enrodilhadas que se atiram ao lixo no dia seguinte ao do exame.

A impunidade em que vivem as chamadas casas de fotocópias do nosso país é impressionante; pessoalmente recordo o que me aconteceu nos EUA quando entrei numa casa de fotocópias com uma revista científica onde tinha publicado um pequeno trabalho meu com apenas três páginas e eles se recusaram a fotocopiá-lo porque na respectiva ficha técnica se mencionava o copyright!

Conclusões:

Como disse no início, tire-as o leitor!

Lisboa, Setembro de 2006

© Zé-Manel Polido